Estamos na era da pós-verdade. Fatos históricos e verídicos, amplamente checados e comprovados, são substituídos por “fatos alternativos” na mente de alguns indivíduos, por serem mais convenientes a eles e por validarem convicções que já carregam. Neste Brasil radicalizado de 2018, é o que temos testemunhado em relação ao período da ditadura militar no país (1964-1985).
Na última segunda-feira, chegamos ao cúmulo de ouvir o líder do PSB na Assembleia Legislativa sustentar na tribuna da Casa que, durante o governo militar, todos tinham acesso a saúde, segurança e educação, e que ninguém reclamava de deficiências nessas áreas. Em entrevista à coluna na quarta, o deputado Freitas foi além e, rasgando a história do próprio partido – cassado pelos militares em 1965 –, verbalizou o delírio de que “não houve ditadura militar no Brasil”.
Para botar os pingos nos is da palavra “arbítrio”, a coluna submeteu o pronunciamento do deputado a quem realmente entende da matéria: o historiador Pedro Ernesto Fagundes, professor da Ufes e coordenador da Comissão da Verdade da universidade, cujo relatório conclusivo foi apresentado no fim de março deste ano. Ponto por ponto, ele identifica as falhas no raciocínio do deputado, compartilhado por muitos.
Cassação
Pedro Ernesto – A primeira coisa é que falta ao deputado um conhecimento mínimo da história do próprio partido ao qual ele está filiado. O Partido Socialista Brasileiro (PSB) é um partido organizado em 1947, depois da ditadura de Vargas, o Estado Novo. O partido teve uma vida legal até 1965, quando veio o Ato Institucional nº 2 (AI-2), baixado pela ditadura militar, que impôs o bipartidarismo, colocando o PSB e muitos outros partidos na ilegalidade. O PSB só pôde voltar a atuar legalmente em 1985. Isso prova que a ditadura não aceitava o contraditório, a discussão de posições políticas. Simplesmente cassava o registro de partidos institucionalizados. Observe-se que o PSB não era um grupo guerrilheiro nem nada disso. Era um partido que sempre havia atuado na legalidade e na institucionalidade. E, mesmo assim, foi cassado.
Mal-intencionados
Pedro Ernesto – Uma questão central que determina esse tipo de discurso atualmente é uma mistura de desconhecimento com inocência. Na atualidade, por conta da radicalização política que o Brasil passa, foi possível que grupos mal-intencionados venham apresentando versões alternativas sobre a ditadura. É a chamada “pós-verdade”. Tentam desconstruir o que foi o marco central do regime militar, que foi a repressão política. Essa repressão se deu em todas as esferas: fechando o Congresso, cassando partidos, cassando os mandatos de deputados, censurando os meios de comunicação, instituindo o AI-5, em dezembro de 1968. O AI-5 foi baixado por causa de um discurso do deputado Moreira Alves contra o regime. A partir desse fato, o governo fechou o Congresso.
Segurança
Pedro Ernesto – A ideia de que não havia criminalidade na ditadura é outra inocência. Os esquadrões da morte são criados nesse período. Todo o esquema do jogo do bicho se profissionaliza nesse período. O Comando Vermelho surge nesse período. Todo o crime organizado, tal como conhecemos hoje, se institui exatamente na franja dessa repressão política. O governo se concentrava na repressão política e deixava meio de lado o combate ao crime, principalmente nas comunidades mais pobres.
CENA POLÍTICA
Na saída do evento em que o presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB) deu palestra a empresários capixabas, o senador Ricardo Ferraço (PSDB), candidato à reeleição, começou a pedir votos a alguns dos presentes. Mas se confundiu na hora de dizer o próprio número de urna. Quem o salvou foi Neivaldo Bragato, assessor especial da Secretaria de Estado de Governo.