Há 460 anos, chegava à América a primeira pintura, fruto da façanha do Irmão Leigo “Frei” Pedro Palácios. Ele trouxe para Vila Velha uma tela renascentista chamada “A Virgem com o Menino”, dita Nossa Senhora das Alegrias. Segundo pesquisa que fiz em Lisboa (Museu Nacional da Arte Antiga, 1967/68), orientado por Peniche Galveias, ela é obra da escola do mestre de Santa Auta.
A partir de 1558, essa tela sempre esteve exposta ao público. De inicio junto à praia, num oratório. Logo depois, no alto do morro, na Capela de São Francisco. Construído o convento, permanece ao lado do púlpito. Não há registro de qualquer outra pintura anterior ou contemporânea como esta no continente americano. A tela com a Virgem de Guadalupe (México) é mais antiga (1531), mas trata-se de intervenção divina, com processo de coloração exaustivamente pesquisado, mas ainda não decifrado. A preferência por objetos de culto religioso, naquele tempo, era por imagens talhadas em madeira, pela facilidade no transporte em caravelas, conservação e uso como cofre (“santinhos do pau oco”).
Não me esqueci dos índios. Concordo com Mário de Andrade quando afirma em “Aspectos das Artes Plásticas no Brasil” que índios não pintavam; desenhavam com tinta.
O Convento da Penha possui pinturas com histórias interessantes. Junto ao altar-mor, duas telas ovais de Vitor Meireles (autor da “Primeira Missa no Brasil” e “Batalha dos Guararapes” - MNBA) mostram o morro do convento antes e depois da construção da igreja.
No corredor da capela estão expostas quatro grandes telas (240 x 170 cm), do pintor paulista Benedito Calixto (1927). Uma delas mostra o ataque dos holandeses ao convento, sendo repelido por um exército de anjos que desce do céu. Entretanto, passados 13 anos desta investida frustrada, os holandeses voltaram (1653) e levaram tudo que quiseram. Desta vez, não houve socorro divino. Entre as duas investidas dos holandeses, será que pecaram os capixabas, ou o céu deu um cochilo?
Em outra tela grande de Calixto, no corredor, Pedro Palácios está em frente à gruta que habitava na Prainha, apontando para a tela de N.S. das Alegrias, exposta no oratório. A primeira construção no alto do morro, abrigando a tela, foi concluída antes de 1570, data da primeira Festa da Penha. Esta festa cristã mariana é a mais antiga das Américas, sempre atraiu milhares de pessoas. Só teve uma breve interrupção de dois anos, durante a ditadura Vargas, que proibia qualquer aglomeração.
É possível que a tela com mais tempo de América, exposta permanentemente durante 460 anos em local muito frequentado, seja também recordista de visualizações do público.
*O autor é pintor