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Carlos Madeira Abad

A mão capixaba e a atitude no trânsito

O mão capixabês "raiz" é facilmente identificável porque sinaliza depois de iniciar a manobra

Publicado em 05 de Novembro de 2018 às 00:27

Públicado em 

05 nov 2018 às 00:27

Colunista

Carlos Madeira Abad* 
A mão capixaba é como moqueca, coisa só nossa, porque o resto é peixada. Consiste, basicamente, em andar devagar, bem devagar pela pista da esquerda e deixar a pista ou as pistas da direita para a passagem dos mais velozes. É verdade que o volante é à esquerda do carro e a lei de trânsito diz que as ultrapassagens devem ser feitas pela esquerda, mas isso não impede esse estilo de direção porque a mão capixaba se finca nas ideias de que dirigir devagarzinho é o que evita acidentes, de que os ingleses estão certos e de que do lado esquerdo é mais fácil ver o meio-fio.
A mão capixaba tem outras peculiaridades. Além do motorista convicto se manter firme na pista da esquerda ignorando qualquer sinal sonoro ou luminoso que por ventura lhe faça algum outro motorista que esteja querendo ultrapassar, quem adota essa especial conduta faz questão absoluta de não sinalizar em qualquer situação. Sinalizar concomitantemente com a mudança de direção mostra que o mão capixabês já está mais experimentado no mister, mas o mão capixabês “raiz” é facilmente identificável porque sinaliza depois de iniciar a manobra.
A mão capixaba é realmente interessante, emocionante até, e nos bairros da cidade pode-se observar outras atitudes características do iniciado nela. Sair de casa na contramão é a manobra primeira e estacionar o carro na rua ocupando meia pista vem depois, mas na hora do rush se separam o mão capixabês e os outros motoristas, porque aquele para na pista com uma freada brusca, interrompe o fluxo normal da via sem o menor pudor, mergulha na contramão de direção e para na vaga de estacionamento que está logo ali ou entra na garagem de casa buzinando para o porteiro, sem contornar a rotatória que está a 10 metros adiante servindo de jardim urbano.
Para concluir o estudo, deixo registrado que o automóvel adequado para a mão capixaba prescinde de qualquer espelho retrovisor ou coisa que o valha já que o mão capixabês simplesmente não os usa, nem para remédio, durante todo o tempo em que está sentado na frente do volante.
De tempos em tempos acontece alguma intercorrência que acaba em colisão, mas isso é o que menos importa quando não há feridos, porque o que vale mesmo é o exemplo que os adeptos da mão capixaba oferecem para as crianças e adolescentes que veem, sentem, e experimentam isso tudo achando que é normal viver e fazer as coisas da vida ignorando qualquer regra.
Os grandes mestres ensinam pelo exemplo, e não há qualquer coisa que avassale mais suave e profundamente a alma humana do que o exemplo.
*É juiz da Infância e Juventude

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