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José Carlos Corrêa

A realidade dos paradoxos brasileiros

Na greve dos caminhoneiros, 87% das pessoas diziam apoiar a manifestação. Passado o ato, parece que a população começa a entender que a conta é sua

Publicado em 22 de Junho de 2018 às 23:18

Públicado em 

22 jun 2018 às 23:18
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

jccsvt@terra.com.br

Ouvi de um especialista, na Rádio CBN, que o brasileiro tem grandes dificuldades em conviver com o capitalismo. Ele comentava pesquisa que o Datafolha fez durante a greve dos caminhoneiros em que 87% dos pesquisados diziam apoiar a paralisação mas não estavam dispostos a pagar a conta da redução do preço do diesel. Como não existe almoço grátis, ficava no ar a pergunta: e quem vai pagar esta diferença?
Se for o governo, lembrava o especialista, o dinheiro iria sair do nosso bolso, pois o que o governo gasta é o que arrecada sob a forma de impostos. Mesmo a alternativa encontrada de retirar os subsídios dados para outros setores, impacta a inflação que também é suportada pelos consumidores. Como disse Carlos Alberto Sardenberg, “é retirar um subsídio para financiar outro subsídio; ou aumentar um imposto aqui para reduzir ali”.
Pesquisas revelam que o paradoxo não fica restrito à greve dos caminhoneiros. Mesmo com os números oficiais demonstrando o déficit gigantesco das contas da Previdência Social, pesquisa mostra que 51% dos brasileiros consideram que a nossa Previdência é sustentável
Além de reonerar a folha de vários setores industriais, o governo remanejou verbas até então destinadas a outros ministérios, dando margem ao aparecimento de novas críticas. Até um ministro do governo reclamou do corte de verbas ocorrido na sua pasta. Mais um que, como a maioria dos brasileiros, ainda não entendeu que alguém, em algum momento, teria que pagar a conta. Conta, aliás, herdada de governos anteriores que controlaram artificialmente os preços dos combustíveis achando que a Petrobras aguentaria o tranco. Não aguentou e chegou a estar tecnicamente falida.
Passada a greve, parece que a população, finalmente, começa a entender que a conta é sua. Nova pesquisa, realizada em 6 e 7 de junho, demonstra que 69% da população entendem que a greve dos caminhoneiros mais prejudicou do que beneficiou o país. Ainda assim, 68% consideram que o governo deve controlar o preço dos combustíveis mesmo que isso traga prejuízos à Petrobras.
Mas as pesquisas revelam que o paradoxo não fica restrito à greve dos caminhoneiros. Mesmo com os números oficiais demonstrando o déficit gigantesco das contas da Previdência Social – déficit que se avoluma a cada dia e é o maior responsável pelo desequilíbrio das contas do governo –, pesquisa feita pela Ipsus em parceria com a Fenaprevi, divulgada dia 12, mostra que 51% dos brasileiros consideram que a nossa Previdência é sustentável. Ou seja, acreditam que a reforma da Previdência não é necessária.
Que a população ainda esteja desinformada ou, como diz o especialista, tenha dificuldades de conviver com a economia de mercado, é até possível compreender já que somos um país fundamentalmente desigual. Mas constatar que haja candidatos à Presidência da República repetindo a mesma coisa, é lamentável.
*O autor é jornalista
 

José Carlos Corrêa

É jornalista. Atualidades de economia e política, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham análises neste espaço

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