Em busca de melhores condições de vida, a jovem Merlis Martinez, 27 anos, deixou um curso universitário em Engenharia de Sistemas na Venezuela e hoje trabalha em Vitória como empregada doméstica. Aqui, quer voltar a estudar e junta dinheiro para trazer a família. “Minha mãe está comendo com o dinheiro que estou enviando para lá”, afirma.
A emigração mudou a vida da também venezuelana Angela Providência David Cueva. Ela está na capital capixaba, onde decidiu se estabelecer, desde janeiro deste ano. Considera que há mais oportunidades de trabalho. Sobre o país de origem, diz que lá “não tinha comida. Se alguém encontrasse um determinado produto, depois o vendia 50 vezes mais caro. O dinheiro não dava para nada”.
É uma referência à inacreditável inflação venezuelana de 1.000.000% (um milhão por cento) projetada para 2018, motivo do “Madurazo” em vigor, com o corte de cinco zeros na moeda, que passou a se chamar bolívar soberano, e a adoção de novo câmbio, com desvalorização de 96% do dinheiro local frente ao dólar.
Há grande ceticismo sobre a eficácia desse plano do ditador Nicolás Maduro. A voz corrente é de que não eliminará a hiperinflação nem resgatará o país do colapso econômico. A recessão é catastrófica e já está no quinto ano. Oito em cada dez venezuelanos não dispõem de renda para comprar uma cesta básica (com alimentos e produtos de higiene). Nem que tivessem, não conseguiriam. Esses produtos praticamente já não existem. O desabastecimento é dramático e atinge também remédios.
Merlis e Angela, que escolheram o Espírito Santo para morar, integram o grande êxodo de um país destroçado por governos populistas, autoritários e dados a manipulações políticas – infelizmente apoiados pelo Brasil. Desde o ano 2000, cerca de 4 milhões de cidadãos fugiram do inferno construído pelo chavismo.
A Organização das Nações Unidas (ONU) avalia que a crise migratória na Venezuela já está quase no nível de fluxo de refugiados no Mediterrâneo para escapar da miséria. O IBGE estima que pelo menos 30 mil tenham fixado residência no território brasileiro.
É claro que o Brasil tem problemas sociais, políticos e econômicos de sobra. O desemprego é alarmante, e a pobreza está crescendo. Mas essa situação não o exime do dever moral de acolher e prestar assistência humanitária aos que se veem na premência de deixar a sua terra natal para sobreviver.