A recente morte de George Floyd tem gerado muitos protestos. Mas, com milhares de pessoas morrendo, diariamente, por causa da Covid-19, por que uma vida, em particular, importa tanto?
A morte determinada por causas naturais, como as enfermidades produzidas pelo coronavírus, fazem parte da vida biológica de todos os animais. Sentimos, sofremos, porque amamos. É natural, mas é triste.
A morte causada pela ação violenta de outra pessoa não é apenas triste. É repugnante e revoltante. Denuncia que o ser humano, sentado em um trono, na montanha mais alta da Terra, comporta-se como a coroa da criação e o dono do mundo, o senhor da vida e da morte. Qual o grau de egoísmo e insensibilidade se tem que ter para, de modo frio, tirar a vida de alguém?
Milhares de pessoas sofrem mortes violentas, todos os dias. O que a morte de Floyd tem de especial? Tudo. Nada. Tudo, porque mostra, ao mesmo tempo, a que ponto pode chegar a crueldade humana e a perversidade e o racismo estúpido das instituições que criamos.
Nada, porque, infelizmente, é só mais uma. Nos EUA, no Brasil, em todas as partes desse planeta azul, a cor negra é massacrada, deixando vermelhas as mãos dos que matam e dos que não se indignam. E de nada adianta suceder-se o branco da bandeira de paz, vã e tardiamente hasteada. Floyd passou 526 segundos com três policiais pressionando-o, algemado, contra o chão. “Por favor, não consigo respirar”, dizia, enquanto um dos agressores, que recebe dinheiro público para proteger os cidadãos, mantinha-se ajoelhado sobre o seu pescoço.
A humanidade implora. “Não consigo respirar.” É o que diz a vítima do coronavírus. É o que diz a vítima da violência e do racismo. É o que dizem todos os que se importam com a vida humana. A vacina contra o coronavírus certamente será encontrada. Infelizmente, a mesma esperança não se estende ao preconceito e ao egoísmo, as piores doenças que uma pessoa pode ter.
*O autor é professor de Direito Penal da FDV e advogado criminalista