Há um silêncio cada vez mais comum entre nós. Crianças e adolescentes estão juntos, mas não conversam. Estão presentes, mas não olham. Estão entretidos, mas não brincam.
Basta observar uma mesa de restaurante, uma sala de espera ou uma reunião de família. A tela ocupa o espaço que antes pertencia à conversa, ao tédio, à espera e ao encontro.
Foi essa inquietação que me acompanhou depois de participar do XVIII Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental, em Vitória. Entre os temas abordados, um não me saiu da cabeça: as intoxicações eletrônicas.
O nome assusta, e é preciso que assuste. Nossas crianças e adolescentes estão sendo intoxicados por um bombardeio de imagens que não pede nada em troca e não constrói pensamento ou formula questões. A tela dá tudo, na hora, sem esforço.
Vemos cotidianamente crianças e adolescentes imóveis, quase em transe diante dos gadgets. Não é cena de um futuro distópico. É o nosso presente, e o preço disso é silencioso.
Na psicanálise aprendemos que o sujeito se estrutura na falta. É a ausência que faz a criança desejar, perguntar e inventar, ingrediente fundamental para nossa humanidade. O bebê que chora e espera o colo aprende que o mundo responde, mas não imediatamente. Nessa espera nascer funções necessárias à vida coletiva.
A tela rouba algo mais precioso do que o tempo: o olhar que compartilhamos enquanto a vida acontece. O bebê se constitui no olhar do outro, daqueles que o nomeiam e reconhecem. Quando a tela toma esse lugar, a criança se aliena do próprio desejo. Não por acaso, o tema do congresso foi pathos, resistência e alienação. Sem o olhar do outro, passamos a nos bastar, criando uma sociedade individualista.
Autores como Julieta Jerusalinsky, Angela Baptista e Christian Dunker há anos se dedicam ao tema. Nossas crianças e adolescentes estão sendo intoxicados pela exposição diária a centenas de imagens que invadem o psiquismo em formação.
O resultado? Crianças que não brincam, não conversam, não suportam espera e não toleram estar com o outro. Adolescentes que não sabem o que sentem, porque nunca ficaram a sós com seus sentimentos e, para se sentirem vivos, se mutilam ou se tornam suscetíveis aos desafios da internet. E pais exaustos, que trocaram o colo pelo tablet, substituindo o mais importante na formação de novos sujeitos: atenção, limites, afeto e presença.
A boa notícia é que a cura começa com gestos simples. Para os pequenos, troquem a tela por coisas que cabem na palma da mão: massinha, giz de cera, panelas na cozinha. Cozinhar junto é um espetáculo. Ler em voz alta é um abraço. O que a criança mais deseja não é a tela, mas a presença: o colo, a voz, o riso compartilhado. Um passeio no quintal, uma bola, uma poça d'água depois da chuva.
O tédio é o quintal da criatividade. Uma criança entediada inventa mundos; uma criança entretida apenas espera o próximo vídeo.
Para os adolescentes, a conversa é outra. Não se trata de proibir, mas de combinar. Regras claras, feitas juntos: nada de celular à mesa, telas fora do quarto à noite, limites de tempo combinados e cumpridos.
O adolescente vive uma segunda batalha: precisa se separar dos pais e se reconhecer no mundo. Mas, em vez de se olhar no espelho da família e dos amigos, ele se olha no espelho das curtidas.
A tela não é o vilão. O vilão é o excesso que rouba o vazio. E sem vazio não há desejo. Sem desejo não há sujeito. Que tal esta semana manter apenas uma tela ligada, para ser compartilhada? Escolher um filme juntos, jogar um jogo juntos ou simplesmente desligar a telinha e ver o que acontece?
Talvez surja um silêncio e que o suportemos. Talvez uma conversa que ninguém esperava. Talvez um abraço, colo, pique. Talvez uma criança perguntando: "Mãe, e se a gente brincar?" E que brinquemos!