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Fernando Repinaldo

Artigo de Opinião

É especialista em Administração Pública, Gestão de Projetos e Engenharia de Tráfego
Fernando Repinaldo

'Andabilidade' e 'ruas completas': como fazer o deslocamento a pé ser atrativo

Largura e qualidade das calçadas, arborização, mobiliário urbano, equipamentos urbanos e sistemas de inteligência disponíveis, iluminação, presença e percepção de segurança urbana são situações que precisam ser redimensionadas
Fernando Repinaldo
É especialista em Administração Pública, Gestão de Projetos e Engenharia de Tráfego

Publicado em 01 de Setembro de 2023 às 15:56

Publicado em 

01 set 2023 às 15:56
Todos querem viver numa cidade que ofereça uma boa qualidade de vida. Para tanto, é premissa estruturante a compreensão da “andabilidade”, o movimento original de andar a pé, reconhecendo os pedestres nos planejamentos estratégicos como os principais usuários das vias das cidades.
Além dessa noção, devemos expandir nossa consciência cidadã e conhecermos a ideia e o significado de “ruas completas”. A idealização de uma cidade sustentável passa necessariamente pelo conceito de ruas desenhadas para darem segurança e conforto a todas as pessoas, de todas as idades, usuários de todos os modos de transporte; um projeto que tem como base distribuir o espaço de maneira mais democrática, beneficiando a todos. É uma medida que agrega benefícios à saúde, ao meio ambiente e à economia.
Não raro, o deslocamento a pé deixa de ser uma opção atrativa, ora por tornar-se uma disputa de espaço com veículos, ora pela quantidade de obstáculos até o destino. O mesmo acontece com outros dispositivos da “mobilidade ativa”; é o caso das bicicletas e patinetes, por exemplo. Algumas medidas em relação ao planejamento urbano podem transformar essa situação e promover um novo olhar sobre a cidade. Não se trata de um desenlace mágico, tampouco de uma solução única de rua completa. Significa apenas incorporar as melhores alternativas de desenho urbano respondendo ao contexto local da área onde se localizam, refletindo a identidade da rua e as prioridades daquela comunidade.
Vários critérios estabelecem a implantação desse novo paradigma de concepção de ruas. Não há necessidade de grandes investimentos para começar o processo. É possível adotar soluções de baixo custo para distribuição do espaço, tintas e sinalizações são algumas delas. A infraestrutura vai se formando com o tempo. Largura e qualidade das calçadas, arborização, mobiliário urbano, equipamentos urbanos e sistemas de inteligência disponíveis, iluminação, presença e percepção de segurança urbana são situações que precisam ser redimensionadas.
A facilidade do pedestre e condutores de veículos de propulsão humana em chegar ao seu destino sem o uso de carros deve ser considerada ao se planejar o espaço público, e a relação com a calçada deve ser cogitada ao se projetar algum empreendimento. Caminhar é a forma mais natural de deslocamento e a que possibilita a melhor vivência no espaço urbano. A escolha pela condição de pedestre torna a rua mais segura, promove o comércio e reduz a necessidade de construção de novas infraestruturas de transportes motorizados.
Algumas cidades brasileiras já adotam com relativo sucesso essa proposta. Longe de ser apenas um espaço para circulação de pessoas a pé, o redesenho das ruas prevê um espaço seguro, razoável e democrático para todos os seus usuários. Precisamos convencer os administradores das nossas cidades a compreenderem e incrementarem essa ideia. A noção equivocada do que significa “espaço público” gera equívocos na destinação de recursos e prioridades aos modais de circulação, focando nos automóveis e relativizando aqueles que ainda não compreendem o suficiente.
Frio muda paisagens na Grande Vitória. Pedestre tentam se proteger do frio. Av. Reta da Penha, Vitória.
Pedestres na calçada Crédito: Rodrigo Gavini
As legislações municipais evasivas e ações imprevisíveis da autoridade administrativa são problemas que deverão ser enfrentados e debatidos algum dia, não podemos atropelar as evidências. O fato é que necessitamos de um modelo para democratizar e melhorar as vias públicas e é urgente o debate com a sociedade.
Controvérsias à parte, a mobilidade das pessoas e não dos veículos deve estar no centro da tomada de decisões e do planejamento de transportes. As cidades devem priorizar a caminhada, os modais ativos e coletivos, o compartilhamento eficiente e toda sua interconectividade. Afinal, o futuro das cidades é multimodal e integrado.
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