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Artigo de Opinião

Manoel Goes Neto

Até Roberto Carlos é personagem da história do Orfanato Cristo Rei

Em 1966, o Rei fez show no Parque Moscoso com renda revertida para a construção da nova sede. Episódio é relatado em livro que conta a trajetória do tradicional orfanato capixaba

Publicado em 08 de Março de 2019 às 19:42

Publicado em 

08 mar 2019 às 19:42
Crianças do Orfanato Cristo Rei com o Arcebispo Dom João Batista da Mota e Albuquerque (ao centro) e Irmã Marcelina de São Luiz (última à direita) Crédito: Acervo do Arquivo Público Estadual
Manoel Goes Neto*
Quando li os originais do novo livro do Marcos Bubach, “Orfanato Cristo Rei – do Sacrifício à Ascensão”, fui fisgado logo pelas fotos e documentos do Convento de São Francisco e Orfanato Cristo Rei que ilustram a obra. O autor apresenta em 14 capítulos, bem escritos, uma precisa cronologia histórica que poucos capixabas conhecem. Eu confesso que desconhecia uma história tão rica e tão dramática dessa importante instituição. 
O livro conta uma história real e atual, passados quase 100 anos, quando em outubro de 1924, um missionário italiano, Padre Leandro Dell’Uomo, com forte vocação caridosa para com as crianças e menores abandonados, teve a ideia de aproveitar parte do abandonado Convento de São Francisco, no Centro Histórico de Vitória, na Cidade Alta, para ali instalar um orfanato. Inicialmente chamou-se Orfanato Coração de Jesus e, depois, Orfanato Cristo Rei.
Os primeiros nove capítulos são essenciais para entendermos o título da obra e a importância social dessa instituição voluntária religiosa. Para os espaços de abrigamento ainda vão hoje todas aquelas crianças que de alguma forma perderam ou viram enfraquecer as relações com famílias ou comunidades, ao ainda aquelas que transitam entre a casa, as ruas e os próprios orfanatos, construindo sua própria identidade e história de vida nesses diferentes e adversos espaços. Mantidos inicialmente por doações e do pouco que podiam produzir se alimentavam.
Com sutis diferenças em relação ao atendimento que se prestava às crianças no século XIX e início do século XX, persistem ainda hoje as mesmas razões para a institucionalização, mesmo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que defende o direito ao convívio familiar e comunitário.
Orfanato funcionou por décadas no Convento de São Francisco, no Centro de Vitória Crédito: Guilherme Ferrari - GZ
Até o ano de 1961 o orfanato funcionou no interior do Convento de São Francisco, quando foi transferido para Viana, por ordem do então Arcebispo de Vitória Dom João Batista da Mota e Albuquerque, que queria o local desocupado de imediato, o que fora feito em uma noite. O espaço seria reformado para receber a sede administrativa da Igreja Católica capixaba. Foi uma mudança traumática para Viana das 130 crianças e adolescentes ali instalados. Início da saga espinhosa de várias mudanças que a Irmã Marcelina de São Luiz (1913/2001), e suas crianças, sob seus cuidados desde 1957, submeteriam-se. Mas deixemos para os leitores conhecerem esses fatos espinhosos em detalhes no livro, que está excelente.
Grandes personalidades capixabas de destaque foram internas no antigo Orfanato Cristo Rei do Convento de São Francisco. Podemos citar: Hermógenes Lima Fonseca, um dos maiores estudiosos da cultura popular capixaba. Miguel Marvilla, poeta e contista. Darcy Castello de Mendonça, grande radialista, político e que dá nome à Terceira Ponte, e Jonas Porphírio, jornalista, radialista, um grande benfeitor das causas do Orfanato Cristo Rei. Até o cantor Roberto Carlos fez em 1966 um show no Parque Moscoso, com toda a renda revertida para a construção da nova sede do orfanato.
Após mais de quatro décadas de trabalho e dedicação às crianças do Orfanato Cristo Rei, Irmã Marcelina de São Luiz faleceu aos 88 anos em 2001, vítima de um derrame cerebral. Pautou a sua vida pelo serviço e pelo seguimento do Evangelho: “Quem acolhe o menor a mim acolhe” (Mc 9,37). Hoje, o antigo Orfanato Cristo Rei é uma entidade social, denominada Artesanato Obra Social Cristo Rei, administrada pelas religiosas da Congregação das Irmãs de Jesus na Eucaristia de Cachoeiro de Itapemirim. Lar de mais de 100 crianças, que chegam logo de manhã, alimentam-se, praticam esportes, estudam, e às 15h retornam para as suas residências. O orfanato continua sendo mantido por doações, e pelos mais de 3.800 associados.
*O autor é presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha e diretor do IHGES
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