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Artigo de Opinião

Política

Bolsonaro e o discurso da ditadura

Jair Bolsonaro, quando deputado federal, chamou de herói um dos torturadores do regime

Publicado em 20 de Março de 2019 às 01:20

Publicado em 

20 mar 2019 às 01:20
Presidente Jair Bolsonaro
Felipe Izar*
Não é muito difícil associar o discurso do presidente Jair Bolsonaro com a ditadura. E não é coisa da imprensa colá-lo a tal imagem, como afirmou o guru bolsonarista, Olavo de Carvalho. O próprio chefe da nação – eleito democraticamente, preciso dizer – se encarregou de colocar-se nesse contexto nos últimos anos. Marcante, por exemplo, foi sua fala na Câmara durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma, em novembro de 2016. O então deputado federal chamou de herói um dos torturadores do regime: o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.
Ustra já era há muito conhecido por suas ações no comando da DOI-CODI paulista – uma das unidades de repressão mais agressivas da ditadura. Seu nome ficou assinalado na história quando, em 1985, ano do fim do regime, uma lista com os 444 agentes da repressão denunciados como torturadores foram revelados.
Essa lista, como explica o jornalista e escritor Lucas Figueiredo, no livro “Olho Por Olho”, é resultado de relatório comandado pelo cardeal d. Paulo Evaristo Arns e que resultou na obra “Brasil: Nunca Mais”. Trata-se de um amplo processo de pesquisa, com seis anos de duração, que teve como mecanismo fazer cópias dos processos judiciais arquivados no Superior Tribunal Militar (STM) e, assim, ter acesso aos depoimentos de quem sofreu a repressão na pele.
A tortura cruenta dos “Anos de Chumbo” fora escancarada. E é a partir desse ponto na história, ao querer dar o troco no “Brasil: Nunca Mais”, que os representantes do regime revelam o discurso da ditadura – o qual, em muitos pontos, pode ser claramente identificado nas exclamações de Bolsonaro e seus seguidores.
Vamos comparar. Lucas Figueiredo teve acesso a uma cópia do livro secreto do regime militar, conhecido como “Orvil” (livro ao contrário), que surgiu exatamente para ser a antítese do “Brasil: Nunca Mais” (“Orvil” ficou pronto em 1987 e nunca tinha sido publicado, mas circulou de forma clandestina e, mais tarde, foi disponibilizado na internet). Também em sua obra “Olho Por Olho”, o jornalista evidencia a forma como o regime à época interpretou - ou suavizou - seus atos de violência e repressão.
Lucas Figueiredo escreve, ao elucidar o “Orvil”: “Vista por uma potente lente de aumento, a realidade foi distorcida e se transformou num fantasma assustador, que vagava pela história a arrastar (...) correntes: 1) Quem havia sido contra o regime militar era de esquerda; 2) Quem é de esquerda é comunista; 3) Quem é comunista é perigoso (...)”.
O autor continua: “O golpe de 1964 (...) não foi um golpe, mas sim uma revolução democrática”. Ou ainda: “Trocando em miúdos: a ditadura não era uma ditadura, mas, de tanto a esquerda carimbá-la como tal, ela acabava parecendo de fato uma ditadura”.
São discursos que ficaram populares na trajetória de Bolsonaro até o Palácio do Planalto e ainda vagam por aí.
*O autor é jornalista e pós-graduando em Ciência Política
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