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Artigo de Opinião

Henrique Geaquinto Herkenhoff

Cadeias são faculdades do crime que formam redes criminosas de contatos

Os mecanismos pelos quais mandamos mais gente para trás das grades, infelizmente, tem uma eficácia restrita contra o crime

Publicado em 20 de Junho de 2019 às 01:48

Publicado em 

20 jun 2019 às 01:48
Cadeias lotadas
Henrique Geaquinto Herkenhoff*
Se há um monte de criminosos infestando nossas ruas, a última coisa que desejaríamos é que eles se conheçam e articulem quadrilhas ou, pior, facções criminosas. Ou não? Grosso modo, a quantidade de presos no ES aumentou cinco vezes mais do que a população do Estado. Isso significa que estamos cada vez mais juntando, bem juntinhas mesmo, pessoas que deveríamos desejar que nunca se encontrassem.
Uma vez que alguém é encarcerado, tem todo o tempo do mundo e todas as oportunidades possíveis, não apenas para aprender a cometer mais e mais graves crimes, mas também para conhecer e ser conhecido por outros criminosos.
É uma convivência longa, para lá de íntima e absolutamente impossível de controlar. Cadeias não são apenas faculdades do crime. São como MBAs, onde, além de aprender se vai para fazer networking. E é uma verdadeira imersão, pois não se fala em mais nada, não se faz mais nada não ser intercâmbio de ideias, cultivo de amizades e construção de relações de cumplicidade, por anos a fio.
Se a isso adicionarmos um sistema hostil que não cumpre nem mesmo os direitos que o próprio legislador resolveu assegurar aos presos, estamos fornecendo um catalisador ao ambiente já por si criminogênico, estamos dando uma espécie de “legitimidade” a uma subcultura criminosa, oferecendo generoso incentivo à união dos internos não apenas para crimes que possam cometer no futuro, quando em liberdade, mas também em torno de pautas comuns durante o cumprimento da pena, o que gera as condições ideais para o surgimento de lideranças e facções criminosas.
Parece um contrassenso, mas existe um limite além do qual mais prisões implicam mais crimes. É muito difícil precisar onde estaria essa fronteira, mas, no caso do Brasil, fica fácil dizer que já a ultrapassamos há muito tempo.
O cidadão comum, preocupado com a sua segurança, não deveria se regozijar com cadeias superlotadas onde criminosos pagam seus pecados da forma mais imunda, pois elas são fontes inesgotáveis de violência e, pior, violência organizada.
É nessas prisões que se formam e se mantém as facções criminosas que dominam os territórios mais abandonados pelo Estado e, dali, espalham o terror por todo o país e para todas as famílias. Os mecanismos pelos quais mandamos mais gente para trás das grades, infelizmente, tem uma eficácia restrita contra o crime, especialmente contra o crime organizado; eles só funcionarão se aperfeiçoados para trocar a quantidade pela qualidade da repressão penal.
*O autor é professor do mestrado em Segurança Pública da UVV
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