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Kátia Vasconcelos

Educação e trabalho: para quem?

Sociedades mais justas não se constroem só com discursos bem formulados, mas com escolhas consistentes sobre quem, de fato, participa do futuro que insistimos em projetar

Publicado em 

17 jan 2026 às 09:00

Publicado em 17 de Janeiro de 2026 às 12:00

O título deste artigo não é retórica nem é recente. Ele revela um traço persistente da sociedade brasileira: o acesso à educação e às oportunidades profissionais segue profundamente condicionado à raça.
Os dados reiteram esse cenário. Das 9 milhões de pessoas que não completaram o ensino médio, 71,6% são pretas e pardas (IBGE / 2023) contra 27,4% de brancos. Esses números indicam que jovens negros enfrentam maiores obstáculos para permanecer na escola, acessar o ensino superior e alcançar inserções qualificadas no mercado de trabalho.
Essas trajetórias não podem ser explicadas como resultado de escolhas individuais ou falhas pontuais. Elas expressam um arranjo estrutural que naturaliza desigualdades e transforma exclusões em rotina.
No mundo do trabalho, essa lógica se reproduz. O acesso ocorre, muitas vezes, de forma tardia e precária; a permanência é instável; e a ascensão permanece restrita. Quando analisamos renda média, segundo dados do Dieese (2024), o rendimento médio dos negros é 40% inferior ao dos não negros.
A baixa representatividade negra em posições de liderança, combinada a diferenças salariais persistentes, evidencia que mérito e desempenho não operam em condições equivalentes para todos.
Assim, quando a evasão escolar, a subocupação e a menor renda se concentram sistematicamente sobre o mesmo grupo social, o problema deixa de ser episódico e passa a ser sistêmico.
Esse cenário se torna ainda mais evidente quando incorporamos o recorte de gênero. As mulheres negras ocupam, de forma recorrente, a posição mais vulnerável na hierarquia educacional e laboral do país.
No mercado de trabalho, elas enfrentam taxas mais elevadas de desemprego e subutilização da força de trabalho, maior concentração em ocupações desprotegidas e rendimentos inferiores — inclusive quando comparadas a homens negros e a mulheres não negras.
Uma parcela muito reduzida das mulheres negras alcança cargos de direção e gerência, enquanto 1 em cada 6 permanece no trabalho doméstico, uma das atividades historicamente mais precarizada e desvalorizada no Brasil.
A desigualdade, portanto, não opera apenas no acesso inicial ao trabalho, mas se aprofunda ao longo da trajetória profissional. Mesmo quando escolarizadas e inseridas formalmente, mulheres negras seguem recebendo menos e encontrando maiores barreiras à progressão na carreira.
Trata-se de um acúmulo de desvantagens que combina discriminação racial e de gênero, produzindo efeitos persistentes e difíceis de serem superados só com o esforço individual.
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Estudante em sala de aula Crédito: Reprodução
Promover equidade, diante desse contexto, exige mais do que reconhecimento do problema. Requer ação coordenada e consistente.
Estratégias como o empoderamento econômico da população negra — por meio de acesso ao crédito, incentivo ao empreendedorismo e políticas de geração de renda — precisam caminhar junto ao fortalecimento do protagonismo e da autoestima, ampliando referências positivas e rompendo narrativas historicamente limitadoras.
Do mesmo modo, uma educação efetivamente transformadora demanda práticas pedagógicas antirracistas, revisão curricular e políticas de permanência que tratem a educação como direito, e não como privilégio.
O desafio que se impõe não é apenas ampliar oportunidades, mas construir pontes sustentáveis entre formação, trabalho e pertencimento.
Afinal, sociedades mais justas não se constroem só com discursos bem formulados, mas com escolhas consistentes sobre quem, de fato, participa do futuro que insistimos em projetar.
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