Gabriela Duarte está errada ao criticar a Folha de S.Paulo por ter feito perguntas políticas a Regina Duarte durante uma entrevista que, originalmente, trataria do reencontro das duas no teatro.
Pode-se discutir tom, insistência, edição e até a busca da imprensa por declarações de maior repercussão. O que não se pode exigir de uma entrevista jornalística é que ela permaneça confinada ao assunto que interessa à fonte divulgar.
A polêmica começou depois de uma entrevista concedida por mãe e filha à Folha para falar de “A Filha da...”, espetáculo que marca a volta das duas aos palcos juntas depois de mais de 20 anos.
A conversa passou pela peça, pela carreira e pela relação profissional das atrizes. Em determinado momento, o repórter perguntou a Regina sobre sua passagem pelo governo Jair Bolsonaro, quando deixou a Globo após mais de meio século e assumiu a Secretaria Especial da Cultura.
Vieram perguntas sobre os 74 dias no cargo, as consequências daquela escolha e a possibilidade de Regina voltar à política. Gabriela se incomodou. Pessoas que acompanhavam a entrevista também protestaram contra a insistência no assunto.
Regina, entretanto, quis responder. Disse que não voltaria a ocupar um cargo como aquele e reconheceu que há pessoas que não a perdoam até hoje pela decisão.
Depois da publicação, Gabriela criticou a condução da entrevista. Questionou o espaço dado à política em uma pauta cultural e argumentou que havia ali uma procura por declarações capazes de produzir manchetes e cliques.
A discussão sobre sensacionalismo é legítima. A conclusão de Gabriela, não.
Bill Kovach e Tom Rosenstiel, em “Os Elementos do Jornalismo”, apresentam um princípio que ajuda a compreender o episódio: a primeira lealdade do jornalismo é com os cidadãos. Não é com o governo, com o anunciante, com o dono do jornal e tampouco com a fonte entrevistada. Os autores também defendem a independência do jornalista em relação àqueles que cobre.
Essa independência pressupõe algo básico: a pauta pode começar com uma peça de teatro, mas a fonte não determina onde termina a entrevista.
Regina Duarte não é somente uma atriz divulgando um espetáculo. É uma das figuras mais conhecidas da televisão brasileira que decidiu deixar uma carreira de décadas na Globo para integrar um governo.
Exerceu um cargo público e participou de um dos períodos politicamente mais controversos da história recente do país. Perguntar sobre isso não significa introduzir artificialmente política em uma entrevista sobre teatro. A política já pertence à sua biografia pública.
Walter Lippmann fez, em “Public Opinion”, de 1922, uma distinção fundamental entre notícia e verdade. Para ele, a função da notícia é sinalizar um acontecimento, enquanto a busca da verdade exige revelar fatos ocultos, relacioná-los e construir uma imagem da realidade sobre a qual as pessoas possam agir.
Essa distinção ajuda a compreender por que jornalismo não pode ser simplesmente a reprodução da realidade que uma fonte deseja apresentar sobre si mesma. Há seleção, contextualização, apuração e julgamento jornalístico. Se o entrevistado pudesse estabelecer previamente quais capítulos de sua própria trajetória são pertinentes, essa mediação estaria comprometida.
É exatamente aí que se encontra a diferença entre jornalismo e assessoria de imprensa. A assessoria trabalha legitimamente para colocar em circulação aquilo que seu cliente deseja comunicar. O jornalista pode receber essa pauta, considerá-la relevante e transformá-la em reportagem. Mas não assume, junto com a sugestão, um contrato que o impeça de perguntar qualquer outra coisa.
Nelson Traquina, ao discutir os valores-notícia em “Teorias do Jornalismo”, mostra como a seleção jornalística obedece a critérios de noticiabilidade, entre eles a notoriedade dos envolvidos e a relevância do acontecimento. A notícia não nasce apenas da intenção de quem fala. Passa também pelo julgamento profissional sobre aquilo que merece ser conhecido.
Naturalmente, independência não significa licença para tudo. Um repórter pode ser inconveniente. Pode insistir sem necessidade. Pode procurar artificialmente uma polêmica. Pode produzir uma manchete desproporcional ao conteúdo da entrevista. A imprensa deve ser criticada quando faz isso.
Mas desconforto não é sinônimo de mau jornalismo.
Há uma velha máxima do ofício, de autoria disputada, segundo a qual jornalismo é publicar aquilo que alguém não gostaria de ver publicado; todo o resto é publicidade. Como toda máxima, ela simplifica uma realidade complexa. Mas contém uma verdade importante.
O jornalismo começa a perder sua função quando o conforto da fonte passa a determinar os limites da apuração.
Gabriela Duarte tem todo o direito de criticar a Folha. A liberdade de imprensa inclui o direito de questionar a imprensa. Mas transformar a insatisfação com determinadas perguntas em argumento contra a legitimidade de fazê-las é outra coisa.
O entrevistado tem o direito de não responder. O jornalista tem o direito de perguntar. A redação tem autonomia para decidir o que publicar. E o público tem o direito de conhecer aquilo que é jornalisticamente relevante.
Se uma entrevista só puder percorrer os assuntos que a fonte gostaria de promover, não teremos uma imprensa mais respeitosa.
Teremos apenas uma assessoria de imprensa sem contrato.