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Marilia Zanete

O impacto silencioso da solidão na saúde física e emocional

A falta de escuta genuína, de vínculos seguros e de pertencimento produz o mesmo efeito nocivo que o isolamento social. Estar acompanhado não é sinônimo de estar conectado

Publicado em 

21 jan 2026 às 13:57

Publicado em 21 de Janeiro de 2026 às 16:57

A solidão faz parte da experiência humana. Todos nós, em algum momento da vida, atravessamos períodos em que nos sentimos sós, mesmo estando cercados de pessoas. O problema surge quando esse sentimento deixa de ser passageiro e passa a se instalar como estado permanente. A solidão crônica é um incômodo emocional, um fator de risco real para a saúde física e mental, com impactos profundos e, muitas vezes, invisíveis.
O ser humano é, por natureza, um ser social. Nosso desenvolvimento emocional, cognitivo e até físico acontece nas relações e a partir delas. É no contato com o outro que aprendemos a nomear emoções, construir identidade, regular o estresse e encontrar sentido na vida. Quando esses vínculos falham, se rompem ou se tornam frágeis, não é apenas o afeto que falta, mas todo um sistema fundamental ao desenvolvimento pessoal, ao autoconhecimento e ao bem-estar é impactado.
Como psicóloga, observo constantemente o quanto a solidão prolongada corrói, aos poucos, a vitalidade das pessoas. Ela não chega de forma abrupta, mas se infiltra silenciosamente na rotina, nos hábitos, no sono e na forma de se relacionar consigo e com o mundo. Estudos científicos têm demonstrado que esse isolamento emocional e social está associado ao aumento de doenças cardiovasculares, à fragilidade do sistema imunológico, à elevação da pressão arterial e até ao risco maior de morte prematura.
O corpo responde ao que a mente sente. Quando alguém vive em solidão constante, o organismo passa a operar em estado de alerta, como se estivesse diante de uma ameaça contínua. Esse funcionamento gera inflamação, prejudica o descanso, altera o equilíbrio hormonal e abre espaço para comportamentos compensatórios, como alimentação desregulada, sedentarismo, consumo excessivo de álcool ou tabaco. Não se trata de falta de força de vontade, mas de um sistema emocional sobrecarregado tentando sobreviver.
É importante destacar que a solidão não se resume à ausência física de pessoas. Muitos pacientes relatam se sentir profundamente sós dentro de relações, famílias e ambientes profissionais. A falta de escuta genuína, de vínculos seguros e de pertencimento produz o mesmo efeito nocivo que o isolamento social. Estar acompanhado não é sinônimo de estar conectado.
Outro dado que merece atenção é o impacto da solidão em adultos de meia-idade. Diferentemente do senso comum, pesquisas indicam que esse grupo apresenta risco ainda maior quando vive em isolamento crônico. Isso revela o quanto nossa sociedade valoriza a produtividade, mas negligencia o cuidado emocional, especialmente nessa fase da vida em que as cobranças são intensas e o apoio, muitas vezes, escasso.
Precisamos falar sobre solidão com mais seriedade e menos julgamento. Reconhecer esse sentimento não é sinal de fraqueza, mas de humanidade. Investir em vínculos, buscar ajuda psicológica, fortalecer redes de apoio e criar espaços de escuta são atitudes que protegem a saúde e, em muitos casos, salvam vidas. A solidão adoece, mas a conexão, quando verdadeira, tem um poder profundo de cura.
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