Criminosos usam spoofing de identificador de chamada e, mais recentemente, vozes clonadas por inteligência artificial para se passar por advogados e convencer clientes a pagar por uma vitória que não existe
Há poucos dias, um cliente meu recebeu uma ligação. No visor do celular, apareciam meu nome e o telefone do escritório. Do outro lado da linha, alguém se apresentou como sendo eu, anunciou uma vitória no processo, distribuído a menos de 15 dias e pediu um pagamento urgente. Só não caiu no golpe porque me conhece há muito tempo e percebeu, pelo tom da conversa, que algo não fazia sentido.
O golpe do falso advogado não é novo, mas a técnica usada nesse caso é. Chama-se spoofing de identificador de chamada. O golpista não precisa clonar a linha nem invadir nada, ele apenas mascara o número que aparece no celular da vítima.
O nome e o telefone exibidos são reais, mas a ligação vem de outro número mascarado pela técnica de spoofing. Isso muda tudo, porque a confiança que depositamos em reconhecer um número conhecido deixa de servir como proteção.
Em 2026 essa fraude ficou ainda mais sofisticada. Além do número falsificado/mascarado, criminosos passaram a usar inteligência artificial para clonar a voz de advogados a partir de áudios públicos, como entrevistas e vídeos, e em alguns casos chegam a simular videochamadas com um suposto juiz, conforme já noticiado pela OAB/ES.
O roteiro costuma seguir um padrão, eles obtêm dados reais do processo, entram em contato por telefone ou WhatsApp, anunciam uma vitória e pressionam por um Pix ou boleto imediato, geralmente com pouquíssimo tempo para pensar.
Diante disso, algumas atitudes simples continuam sendo a melhor defesa. A primeira é desligar e ligar de volta usando o número já salvo do escritório, nunca discar o número que apareceu na tela recebida. Desconfie sempre de urgência, escritórios sérios não cobram custas ou honorários por telefone com prazo de minutos.
Verifique o andamento do processo diretamente no site do tribunal antes de acreditar em qualquer notícia informal de vitória. Em videochamadas, peça um gesto simples e imprevisível, vozes e imagens clonadas ainda falham diante de comandos não roteirizados. E jamais transfira dinheiro para uma chave Pix diferente da que você já usa com seu advogado, mudança de dados bancários, equipe, voz é, isoladamente, motivo suficiente para desconfiar.
A tecnologia deu aos golpistas novas formas de parecer confiáveis, mas o antídoto continua simples: desconfiar da pressa, checar por outro canal e não decidir nada sob o efeito da surpresa. Quanto mais gente conhecer esses sinais, menor o espaço para esse tipo de golpe funcionar.