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Tássio Jubini e Lucas Protti

Artigo de Opinião

Tássio é psicólogo clínico, escritor, mestre em Psicologia e autor do livro de poemas "De Alma Levada" (2022). Lucas é psicólogo clínico, psicanalista, escritor, mestre em Psicologia e autor do livro de poemas "O Amor Destrói Todas as Nossas Convicções" (2023)
Tássio Jubini e Lucas Protti

Por que escrever um livro?

Talvez escrever um livro seja, no fim das contas, um gesto semelhante ao de lançar uma garrafa ao mar. Não há garantia de destino, nem conhecimento prévio sobre quem a encontrará
Tássio Jubini e Lucas Protti
Tássio é psicólogo clínico, escritor, mestre em Psicologia e autor do livro de poemas "De Alma Levada" (2022). Lucas é psicólogo clínico, psicanalista, escritor, mestre em Psicologia e autor do livro de poemas "O Amor Destrói Todas as Nossas Convicções" (2023)

Publicado em 08 de Agosto de 2026 às 10:00

Publicado em 

08 ago 2026 às 10:00

Ainda estamos vivos e acreditamos no poder da escrita e da amizade.
Escrevemos esse texto a quatro mãos.


Em algum momento da vida, muitas pessoas escutam a mesma recomendação: plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. A frase atravessa gerações e parece carregar a ideia de que essas experiências deixariam algum tipo de marca no mundo. Mas, diante de tantas formas contemporâneas de expressão, a pergunta permanece: por que escrever um livro?


A questão ganha novos contornos em uma época marcada pela velocidade da informação, pelas redes sociais e pela comunicação instantânea. Nunca se escreveu tanto. Nunca se publicou tanto. 


Ainda assim, o livro conserva um lugar singular. Diferentemente das mensagens que desaparecem na cronologia infinita das telas, ele permanece como objeto que instiga uma experiência que exige tempo e imersão. 

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Há algo de contracultural no gesto de escrever um livro. Em meio ao fluxo incessante de notificações, o livro convida à permanência. É um espaço onde o pensamento desacelera e pode amadurecer. Mais do que transmitir informações, ele organiza experiências, afetos, dúvidas e memórias.


O filósofo e educador Jorge Larrosa chama atenção para uma característica central da contemporaneidade: estamos cercados por informações, mas cada vez menos disponíveis para a experiência. 


Para ele, experiência é aquilo que nos acontece, que nos atravessa e nos transforma. O excesso de estímulos, opiniões e acontecimentos produz um paradoxo em que sabemos mais coisas, mas nem sempre somos afetados por elas.


Ler exige uma suspensão do ritmo acelerado da vida cotidiana. Exige demora, silêncio e disponibilidade. Um livro não apenas informa; ele cria condições para que algo nos aconteça. Em vez de consumir conteúdos, somos convidados a habitar uma narrativa, uma ideia ou uma linguagem. E é nessa travessia que a leitura pode se tornar experiência.


Não por acaso, escritores de diferentes épocas tentaram compreender o próprio impulso da escrita. A escritora brasileira Clarice Lispector afirmou certa vez: “Escrevo porque não sei o que fazer de mim”. A frase sintetiza uma dimensão frequentemente ignorada da literatura: escrever não é apenas comunicar algo aos outros, mas também buscar compreender a si mesmo.

Retrato de Clarice Lispector, escritora brasileira nascida na Ucrânia, na época do lançamento de seu livro
Retrato de Clarice Lispector, escritora brasileira nascida na Ucrânia, na época do lançamento de seu livro "Visão do Esplendor" Folhapress

Nesse sentido, talvez a pergunta possa ser invertida. Em vez de perguntar por que escrever um livro, seria possível perguntar: por que não escrever?


Para muitos autores, especialmente aqueles que cultivam a poesia, o livro surge como uma espécie de síntese de um percurso. Textos escritos em momentos distintos, às vezes ao longo de anos, encontram uma forma comum e passam a dialogar entre si. O que antes eram fragmentos dispersos transforma-se em obra.


Há também uma dimensão pública nesse gesto. O cantor e compositor Sérgio Sampaio expressou essa ideia nos versos: “Um livro de poesia na gaveta não adianta nada. Lugar de poesia é na calçada.” 


A literatura, nesse sentido, só se completa quando encontra leitores. Publicar é retirar as palavras do espaço privado e colocá-las em circulação.


Na nossa experiência de escrever e publicar um livro, entendemos que ela passava por compartilhar aquilo que há de mais humano: as nossas experiências, inquietações, percepções e perguntas para as quais talvez não existam respostas definitivas. Ao ler, o público não encontra apenas a nossa voz, mas também fragmentos de si mesmo.


É por isso que algumas obras permanecem. Não necessariamente porque confortam, mas porque provocam. Certos livros alteram a forma como enxergamos a realidade, desafiam nossas certezas ou nos obrigam a revisitar aspectos esquecidos da própria existência. São textos que produzem deslocamentos e deixam marcas.

Foi Kafka quem escreveu que “um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós”. A imagem permanece poderosa porque aponta para uma dimensão da literatura que vai além do entretenimento ou da informação. 

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Ler pode ser uma experiência de ruptura. Certos livros nos retiram do lugar habitual, desorganizam certezas, ampliam sensibilidades e nos colocam diante de perguntas que preferíamos evitar. Em vez de confirmar aquilo que já sabemos, eles nos transformam. 


Talvez escrever um livro seja, no fim das contas, um gesto semelhante ao de lançar uma garrafa ao mar. Não há garantia de destino, nem conhecimento prévio sobre quem a encontrará. Ainda assim, o autor escreve. E publica. 


Movido pela possibilidade de que, em algum lugar, alguém abra aquelas páginas e encontre nelas uma companhia inesperada, uma pergunta necessária ou uma nova maneira de olhar para a própria vida.


Porque, no fundo, os livros existem para isso: criar encontros entre experiências humanas que nunca se conhecerão. E, por um instante, diminuir a distância entre elas.

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