Marcos Alencar*
O rapaz com a camisa do Flamengo cruzou comigo na Saturnino de Brito. Tinha os cabelos tingidos de louro-banana, era alto, forte e exibia um sorriso simpático. Aproximou-se e perguntou... adivinha o quê? “A quantas anda a cotação do euro?” Claro que não. Vamos lá, o que o torcedor do Flamengo queria saber de mim? “Quer trocar sua camiseta dos Rolling Stones pela minha do Mengão?” Vê se um flamenguista comete o crime de sair por aí trocando o tal do manto sagrado? Ariano Suassuna também não é dessas barganhas: “Não troco o meu ‘oxente’ pelo ‘ok’ de ninguém”. Então, o que foi que ele me perguntou? Vou dar uma palhinha.
O flamenguista simpático não perguntou se eu tinha um real pra lhe arrumar e nem se era eu no papel de Buck Jones, no filme da Glecy Coutinho. Ele também não estava interessado em saber se eu era mesmo comunista (de esquerda ou de direita, como se diz agora) quando me prenderam em 68. Também não me perguntou porque marginais correm sempre mais que a policia quando são perseguidos. Vamos lá, continue tentando. Não paga nada. Dizem que o icônico (para usar uma expressão da moda) Bob Marley, entre um baseado e outro, ensinava: “A vida é para quem topa qualquer parada. Não para quem para em qualquer topada”. Gênio o jamaicano. Mas, ao que parece, este meu Enem é que é mesmo uma parada.
Vou ampliar o perfil do rapaz. A tal camisa do carinha era meio surrada. Velha de guerra, de um montão de campeonatos nacionais. Tão surrada quanto o tênis que ele calçava. E ele tinha um crucifixo pendurado em uma das orelhas, que talvez sinalizasse uma devoção cristã. E a cara era de gente tonta. Dava a impressão de que acabara de saltar de um carrossel descontrolado de um parque de diversões de desenho animado.
Nada ainda? Vamos então aos “finalmente”. O que o flamenguista simpático, dos cabelos amarelo-banana, cristão, de camiseta e tênis surrados queria mesmo era... saber das horas, ora! “Que horas são?”, foi a pergunta dele, direta e reta como um gol de pênalti.
Na hora não acreditei no que acabara de ouvir. Estava ali diante do único capixaba que ainda não tinha um celular que lhe mostrasse as horas! O único por estas bandas! Ou você conhece outro?
E foi naquele exato momento que desconfiei do verdadeiro motivo da prefeitura da Capital autorizar a instalação de relógios digitais na cidade. Difícil não acreditar que os megarrelógios foram erigidos exclusivamente para atender ao tal flamenguista, o único capixaba sem horas desta cidade. E se minha dedução está correta, que atitude magnânima do poder público! Que belíssimo gesto de piedade cristã. Benza Deus!
Pena que o contemplado tenha dado de ombros para o enorme mostrador do relógio luminoso, ali ao seu lado. Nem se tocou com o presentão oficial. Ingrato, esse flamenguista.
*O autor é cronista