
Eugênio Ricas*
Como divulgado pela imprensa e mencionado em artigo anterior, a polícia do Rio de Janeiro prendeu dois suspeitos de terem matado a vereadora Marielle Franco e seu motorista, Anderson. Detalhe importante acerca dos detidos é que um era policial militar reformado e o outro, ex-policial militar.
A notícia de que os possíveis assassinos já foram, em algum momento, policiais, assusta tanto quanto os próprios homicídios praticados. Quando o braço armado do Estado, que deveria proteger os cidadãos, decide abandonar a lei e seguir o caminho do crime, significa que a sociedade está em um caminho perigoso e a sensação de segurança dos cidadãos se torna um sonho quase impossível de ser alcançado.
As ilegalidades praticadas pelos suspeitos não param no homicídio. O patrimônio de pelo menos um deles é incompatível com a renda de PM reformado. Segundo o Coaf, além de um depósito suspeito de R$ 100 mil em sua conta, o acusado é proprietário de uma lancha, um veículo blindado e uma casa em um condomínio de luxo.
E isso não é um caso isolado. Em levantamento realizado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do RJ, cerca de 20% dos denunciados, desde 2010, são ou eram profissionais da área de segurança pública. Eles respondem por associação criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção, extorsão, homicídio, estelionato, entre outros.
Mas o que fazer, então, para solucionar ou pelo menos amenizar a situação? Diante de um cenário como esse, duas áreas das forças de segurança passam a merecer uma atenção ainda mais especial. A Academia de Polícia e a Corregedoria têm papel fundamental nesse processo todo. A Academia, responsável por formar o homem de polícia, precisa incutir no profissional a visão, a missão e os valores de sua corporação (além, obviamente, de ensinar as técnicas e a melhor doutrina). Já a Corregedoria deve atuar não só repressivamente, mas também preventivamente.
É necessário que haja um trabalho permanente de acompanhamento e apoio à tropa. O monitoramento patrimonial é um exemplo de medida simples e que possui grande eficácia para evitar ou detectar desvios iniciais. Para isso, é necessária uma estrutura administrativa compatível e, principalmente, o compromisso da gestão com uma política de integridade absoluta.
Esse cenário, que aflige a todos nós, é ainda mais angustiante para a maioria esmagadora dos policiais, que trabalha honestamente. É ela, aliás, a maior interessada em fazer parte de instituições que, efetivamente, cumpram seu papel primordial, o de proteger a sociedade.
*O autor é delegado federal, adido da PF nos EUA e mestre em Gestão Pública pela Ufes