Escolher uma roupa, encontrar as amigas, sentar em uma mesa, dançar, paquerar, rir alto, conhecer gente nova. Fazer tudo isso sem pensar duas vezes. Sem procurar o banheiro mais escondido. Sem medir o tamanho do abraço. Sem perguntar, antes de beijar alguém: “Será que aqui é seguro?”. Para muitas mulheres, ainda não é tão simples assim. E foi dessa sensação, tão comum e, ao mesmo tempo, tão pouco falada, que nasceu o Colanella.
Agosto chega todos os anos para nos lembrar de uma palavra que ainda precisa ser dita, reafirmada e, principalmente, vivida: visibilidade. Ser visível não significa apenas ser vista. Significa poder existir sem medo, ocupar espaços sem pedir licença e ter o direito de viver nossos afetos, nossas amizades e nossas escolhas com a mesma naturalidade que qualquer outra pessoa. No Mês da Visibilidade Lésbica, essa discussão ganha ainda mais força porque, para nós, visibilidade também é presença, pertencimento e segurança.
A gente não criou uma festa porque faltavam festas. Criamos porque faltavam espaços onde mulheres lésbicas, bissexuais, trans e outras identidades femininas da diversidade pudessem chegar e simplesmente ser. Sem precisar se explicar. Sem precisar se proteger o tempo inteiro. Sem a sensação de que estamos ocupando um lugar que, de alguma maneira, não foi feito para nós.
As primeiras edições nos mostraram que essa necessidade existia e era maior do que imaginávamos. Mulheres de diferentes cidades do Espírito Santo começaram a chegar. Muitas vieram sozinhas. Muitas encontraram ali pessoas com quem nunca haviam cruzado antes. E, pouco a pouco, aquilo que começou como um evento foi se transformando em uma rede.
Por isso, o Colanella não quer ficar restrito a uma pista de dança. Queremos ampliar essa ocupação. Em breve, a proposta é levar a comunidade para conhecer lugares turísticos do nosso Estado, promover encontros em bares, praças e outros espaços públicos, criando novas oportunidades para que mulheres lésbicas, bissexuais, trans e outras identidades femininas da diversidade possam se encontrar, circular e ocupar a cidade.
Não se trata de criar guetos. É justamente o contrário. É construir segurança e pertencimento para que possamos ocupar todos os lugares. É lembrar que também somos parte da sociedade capixaba, que também consumimos, viajamos, trabalhamos, amamos, criamos famílias, fazemos amizades e queremos simplesmente viver.
Ter espaços seguros não deveria ser privilégio de ninguém. Mas, enquanto eles ainda forem escassos, criar os nossos também será uma forma de resistência.
O Colanella nasceu de uma pergunta simples: se esse espaço não existe, por que não podemos criá-lo? Hoje, a pergunta é outra: até onde podemos chegar quando nos reconhecemos, nos fortalecemos e ocupamos juntas? E a resposta, aqui no Espírito Santo, está começando a ser construída.