
Caio Neri*
O mês de setembro é identificado com a cor amarela em decorrência de campanha iniciada no Brasil, em 2015, pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), com vistas a conscientizar a sociedade e evitar a prática de suicídio. Curiosa e infelizmente, justo no dia 10 de setembro, Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, a Terceira Ponte teve sua maior interdição já registrada em razão de tentativa de suicídio.
O local já é conhecido como um dos principais pontos de cometimento de suicídio no Espírito Santo. Houve, até mesmo, tempos atrás, um projeto de lei que almejava a instalação de proteção na via; medida que, segundo especialistas, poderia ser fundamental para evitar que a ponte continue sendo cenário de acontecimentos tão tristes. No entanto, os nobres parlamentares capixabas não apoiaram a iniciativa, sem embargo da ampla aceitação da sociedade e das recomendações das categorias de profissionais de saúde mental.
Os profissionais de saúde mental têm confirmado que estudos apontam relação entre contingências culturais e os casos de suicídio, por isso, a instalação de proteção na Terceira Ponte deve ser repensada
A postura dos deputados estaduais reflete um tipo de discriminação antigo: contra as pessoas com deficiências ou transtornos mentais, ranço dos tempos em que não se sabia como lidar com qualquer tipo de doença mental, isso retarda ou impede o tratamento, podendo agravar os sintomas, levando o paciente ao isolamento, diminuição da qualidade de vida ou ao suicídio, por exemplo. A psiquiatria é uma especialidade relativamente nova e teve como marco o trabalho dos médicos franceses Philippe Pinel e Jean-Étienne Esquirol, que defenderam que quem sofre de transtornos mentais é doente e, por isso, deve receber tratamento médico.
Hoje, a ciência já sabe que os transtornos mentais são um verdadeiro processo químico que envolve neurotransmissores, como a serotonina, dopamina e endorfina, e seu aparecimento independe da vontade da pessoa. Por isso, elas precisam de tratamento médico e psicológico e, muitas vezes, dependem de intervenção medicamentosa.
Depressão não é brincadeira, falta de Deus ou de força de vontade; é um transtorno que depende de tratamento. Tempos atrás, a OMS divulgou um dado alarmante: a cada 40 segundos ocorre ao menos um suicídio no mundo. Os profissionais de saúde mental têm confirmado que estudos apontam relação entre contingências culturais e os casos de suicídio, por isso, a instalação de proteção na Terceira Ponte deve ser repensada. Se as autoridades competentes não se preocupam com a vida dos cidadãos, que pelo menos se lembrem dos transtornos que são causados à mobilidade urbana quando a Terceira Ponte precisa ser interditada para evitar que uma ameaça de suicídio se concretize.
*O autor é graduado em Direito pela Ufes e assessor jurídico do Ministério Público Federal