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Quarta-feira de Cinzas

As cinzas dizem a todos, crentes ou incrédulos, que tudo é passageiro

Quem acredita na dignidade humana não é ateu. Quem luta por um mundo de justiça não é ateu. Quem quer os bens partilhados não é ateu. Quem só pensa em si é ateu

Publicado em 26 de Fevereiro de 2020 às 05:00

Públicado em 

26 fev 2020 às 05:00
João Baptista Herkenhoff

Colunista

João Baptista Herkenhoff

jbpherkenhoff@gmail.com

Quarta-feira de Cinzas Crédito: Divulgação
As cinzas, impostas na fronte dos fiéis, na Quarta-Feira de Cinzas, constituem uma lição de vida. Revelam a transitoriedade das coisas. Advertem que as vaidades são ilusórias.
Lembram a todos nós que somos pó e em pó nos tornaremos. “Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris.” Lembra-te, homem, de que és pó e em pó te hás de tornar.
Não só a Igreja Católica celebra o tempo quaresmal. Também as igrejas Luterana, Presbiteriana, Anglicana e outras igrejas cristãs debruçam-se à face do mistério do Cristo que foi crucificado e ressuscitou.
O papa Francisco tem estimulado o Ecumenismo. Devido a seu humanismo e humildade, a palavra de Francisco tem merecido a ausculta até de ateus ou supostos ateus. Uso a expressão supostos ateus para me referir a algumas pessoas que se declaram ateias mas que, a meu ver, ateus não são.
Quem acredita na dignidade humana não é ateu. Quem luta por um mundo de justiça não é ateu. Quem quer os bens partilhados não é ateu. Quem só pensa em si é ateu. Quem se coloca contra qualquer projeto de governo que pretenda distribuir melhor a riqueza é ateu.
Quem ataca o papa, mesmo se declarando católico, porque o papa abraçou um determinado líder político, é ateu porque não acredita, nem no papa, nem na Igreja que ele preside. Submete o papa à sua opinião pessoal.
Este nosso Francisco não é Francisco I, nem Francisco II, como era de tradição no nome dos papas e também no nome dos Reis. É apenas Francisco, Francisco e nada mais.
Jesus Cristo pode estar em toda parte. Mas está sobretudo nas favelas, nos hospitais, nas prisões.
Ali onde estão os pequeninos, os desabrigados, os marginalizados, ali está o Cristo Libertador, como anúncio de esperança, consolo dos aflitos, auxílio dos que sofrem. Podemos traduzir de várias formas a advertência das Cinzas, como exemplificamos a seguir.
Lembra-te, tu que exerces função pública de destaque e deténs uma cota de poder, tua função é transitória, os que hoje te bajulam amanhã te desprezarão, procura servir com devotamento à causa pública pois o que fizeres de bom será consolo e alimento de tua alma quando a penumbra chegar.
Lembra-te, tu que estás a produzir tesouros no domínio das ciências, das artes ou das letras, os dotes do espírito podem fenecer e nem mesmo tens a garantia de desfrutar para sempre de lucidez intelectual. Foge do orgulho e da empáfia.
Lembra-te, tu que estás vivo e fulgurante, que o túmulo é o teu destino final. Respeita a reverência à morte, cultiva a memória dos que partiram. As cinzas dizem a todos, cristãos ou não cristãos, crentes ou incrédulos, que tudo é passageiro porque realmente somos pó e em pó haveremos de nos tornar.

João Baptista Herkenhoff

É juiz de Direito aposentado e escritor. Aborda temas atuais com uma visão humanista, com foco nos direitos humanos. Escreve às quartas

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