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Filés de tilápias Carlos Alberto Silva
Produtores de Tilápia

Associados na produção de peixe crescem no ES após crise e seca

Produtores de tilápia de 15 cidades do Estado se uniram para reverter as perdas dos últimos anos

Carlos Alberto Silva

Repórter fotográfico

csilva@redegazeta.com.br

Publicado em 11 de Setembro de 2018 às 12:23

Publicado em

11 set 2018 às 12:23
Dois antigos provérbios combinam muito bem com a situação recente pela qual passaram muitos produtores de tilápia cooperados da Região Serrana do Espírito Santo: “a maré não está pra peixe” e “a união faz a força”. Isso porque a crise na economia, iniciada em 2014, e a pouca quantidade de chuvas nos últimos dois anos fizeram a produção de tilápias no Estado passar por momentos difíceis, com produtores diminuindo a produção ou, pior, secando os tanques e até abandonando o negócio. Mas com a união dos cooperados que ficaram firmes e insistiram na produção mesmo em meio a adversidades, os produtores conseguiram dar a volta por cima.
No início da década, quando o Brasil viveu seu 'boom' econômico com o Produto Interno Bruto (PIB) batendo na casa dos 7,5% - o maior índice em 20 anos -, os produtores de tilápia no Estado ainda faziam parte da Associação Capixaba de Aquicultores (ACA). Aproveitando o bom momento da economia e a produção de peixe em alta, decidiram unir ainda mais forças apostando na formação de uma cooperativa do setor.
“Quando iniciamos na ACA, fomos abrindo mercado e, consequentemente, buscando mais produtores. Ao chegarmos
no final de 2013, o volume de peixe era tão grande - 30 toneladas/mês - que sentimos a necessidade de abrir a cooperativa”, conta Lucio Faria Alves, presidente da Cooperativa dos Aquicultores e Agricultores Capixabas, localizada no município de Muniz Freire, Sul do Estado.
Com a chegada de novos sócios e a crescente quantidade de peixe em produção, a cooperativa ganhou mais corpo e foi necessário a contratação de mais funcionários. “Chegamos a ter 98 cooperados e 24 funcionários para o trabalho de beneficiamento do peixe”, afirma Alves.
O bom momento da aquicultura
O mercado capixaba, no entanto, foi abalado pelas consequências da crise que se abateu sobre a economia e a política nacional. Os produtores locais sentiram que o tempo havia mudado e que a "maré não estava para peixe" naquele momento quando a produção caiu consideravelmente.
“A econômica ruim do país fez a produção de tilápia cair muito, deixando o produtor em dificuldade”, lembra Alves.
Como se os problemas na economia não bastassem, o produtor ainda se viu prejudicado pelo baixo nível de chuvas no Espírito Santo, especialmente em 2015 e 2016, agravando a situação. “Sem água não tem peixe bom. Com pouca água, o produtor tirou o peixe mais cedo do tanque. Um peixe menor diminui o lucro e afeta o capital de giro. Tudo isso refletiu também na cooperativa, que viu cair seu volume de entrada de peixe”, lamenta o presidente da cooperativa.
Para sobreviver e atravessar o período de poucas chuvas e as intempéries da economia, foi crucial a união dos cooperados e a tomada de medidas administrativas. "Foi necessário remanejar funcionários. Foram medidas duras, mas necessárias para atravessar e manter a unidade funcionando", conta Alves. O fato de os produtores estarem unidos por meio da cooperativa foi crucial também para superarem as dificuldades. "Se eu estivesse sozinho não suportaria. Foi a união dos sócios que ficaram na cooperativa que nos deu força para resistir", destaca. “Não pode desistir. Temos que nos unir”. 
Filés de tilápias Crédito: Carlos Alberto Silva
Outro produtor que defende a união dos cooperados é Otávio Kuster, 66 anos. Ele produz entre 3 e 3,5 toneladas de tilápias por ciclo de 8 meses.
Essa produção vem dos tanques em sua propriedade, localizada na zona rural de Domingos Martins. Diferentemente de muitos colegas, seu Kuster - como prefere ser chamado - não teve problema com a falta de água durante o período de estiagem no Estado.
A maior reclamação dele é o alto valor da ração e do alevino. O produtor diz que o saco de ração já custou R$ 25, R$ 35. Hoje, os valores estão entre R$ 65 e R$ 80. O milheiro do alevino sai por R$ 280. Mas a ação conjunta dos cooperados ajuda a enfrentar essas barreiras na produção.
“Eu gasto um saco de ração por dia. No final do ciclo, a gente sente o lucro diminuir e o investimento aumentar. Consegui manter a produção nesses tempos difíceis porque tenho a estrutura da cooperativa. Não pode desistir, tem que insistir e manter a união”, reforça Kuster.
Otávio Kuster mostra sua produção Crédito: Carlos Alberto Silva
Depois da crise
Passado o pior momento da crise, no final de 2017 os produtores respiraram mais aliviados e o otimismo voltou a tomar conta do campo. "Alguns produtores retomaram a produção e voltaram para a cooperativa. Hoje, temos 78 sócios e a produção está entre 18 e 20 toneladas por mês”, diz Alves.
A Cooperativa dos Aquicultores e Agricultores Capixabas trabalha com um selo de inspeção estadual de qualidade. Isso significa que todo o peixe beneficiado por ela tem a vistoria de um veterinário da entidade e outro do IDAF. Com isso, a cooperativa firmou contrato com escolas da rede municipal e estadual para fornecimento de peixe para a merenda escolar. Isso significa mais oportunidades e mercado para os produtores venderem seus peixes e, claro, atraírem mais associados para a cooperativa.
“Tudo que tenho devo a tilápia”
Quem chega à propriedade de Claudio Huver, 46 anos, também em Domingos Martins, encontra um restaurante com quase 30 mesas, em que a maioria dos pratos servidos são feitos com tilápia. No local, também funciona uma pousada e um pesque-pague. Toda essa estrutura veio da criação de tilápias. "Tenho tudo isso, mas o mais importante no meu negócio ainda é o peixe. Os clientes vêm aqui por causa do peixe. Eles querem ver, tocar e, no restaurante, comer o peixe”, diz Kuster.
Antes das tilápias, seu Huver mantinha na propriedade um campo de futebol e um bar. "Depois que comecei a fazer pratos com tilápias e criei o pesque-pague, minha vida mudou. Hoje, tenho dois filhos formados e uma condição de vida boa. Tudo o que tenho devo à tilápia”, diz, todo feliz. Huver também é enfático ao afirmar que nada disso seria possível sem a cooperativa. “Antes, nem conhecia a tilápia. Foram eles, ainda na época da associação, que me apresentaram o peixe, aí resolvi apostar na ideia”. E está dando certo!
Cláudio Huver, produz e vende tilápia em seu restaurante e em sua pousada Crédito: Carlos Alberto Silva
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