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Mobilidade

Aumento da passagem é um tiro no próprio pé do Transcol

A Grande Vitória, que tem no ônibus a exclusividade do seu sistema de transporte público, é uma das regiões metropolitanas que vem apresentando decréscimo no número de passageiros ao longo dos últimos anos

Publicado em 09 de Janeiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

09 jan 2020 às 04:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

tbahia65@gmail.com

Terminal do Transcol em Jardim América, Cariacica Crédito: Secom/ES
Acertadamente, quase todos os projetos atuais de infraestrutura urbana para mobilidade nas cidades estão incluindo ciclovias ou ciclofaixas, junto com as vias para veículos automotores.
A mobilidade ativa, proporcionada pela bicicleta, vem ganhando novas oportunidades e vai se tornando o modo preferencial de muitos trabalhadores e estudantes, pois eles já enxergam as vantagens dela em relação aos demais tipos de veículos, cuja matriz principal ainda é o combustível fóssil, poluente e apontado como vilão do aumento do aquecimento global.
Já a bicicleta, não só faz bem pra saúde como em diversas situações é mais eficiente que os veículos motorizados, que por sua escala e quantidade nas ruas das cidades entopem as vias em determinados horários e realizam deslocamentos em velocidades incompatíveis com a expectativa que se tem de uma máquina feita para conduzir pessoas e mercadorias rapidamente.
Não faz sentido, portanto, ficar parado num carro ou dentro de um ônibus no final do dia, após uma cansativa jornada de trabalho, quando estamos todos loucos pra chegarmos logo em casa e poder descansar e curtir o restante do dia com a família.
E enquanto se está parado no engarrafamento, irritados e cansados, vemos ciclistas, com semblantes serenos, expressando saúde, passar tranquilamente por aquele amontoado de carros e ônibus imóveis e irascíveis.
Bem, alguém poderia argumentar a favor das motocicletas e ciclomotores. De fato, são bem ágeis, porém, também são poluentes e, pior, seus usuários são os que sofrem os mais graves acidentes de trânsito, deixando uma assustadora estatística de mortos e sequelados.
Com a implantação de ciclovias e ciclofaixas, os ciclistas ficam mais seguros e tendem a fazer cada vez mais uso das bicicletas como meio de deslocamento em médias e curtas distâncias, aliviando a demanda pelos demais modais de transporte. E é claro que no vácuo das bicicletas estão os patinetes elétricos.
A questão, no entanto, é que nas médias e grandes cidades, a maioria dos deslocamentos diários são de longas distâncias. E mesmo alguns deslocamentos de média distância, por diversos motivos, são inviáveis para serem feitos em bicicletas ou patinetes.
A chegada dos aplicativos de compartilhamento de veículos vem sendo a saída que muitos usuários encontraram para resolver seus problemas individuais de mobilidade.
Mas, como “não tem nada tão bom que não possa melhorar”, ou piorar, o aumento dos usuários de aplicativos de automóveis já está sendo apontado como responsável pelo aumento nos engarrafamentos em diversas cidades do mundo.
E, só pra lembrar: + engarrafamentos = + poluição; + poluição = aumento do aquecimento global.
Mas não é só este o problema, pois o incremento dos usuários de aplicativos de veículos compartilhados se dá com a diminuição no número de passageiros do transporte público coletivo de massa, que tem no ônibus uma grande dimensão e capilaridade no Brasil, e que se soma a outros modais, como trem, metrô, BRT e VLT em algumas regiões metropolitanas brasileiras.
E a Grande Vitória, que tem no ônibus a exclusividade do seu sistema de transporte público, é uma das regiões metropolitanas que vem apresentando decréscimo no número de passageiros ao longo dos últimos anos. Entre os motivos na diminuição na quantidade de passageiros, além daqueles já citados anteriormente, está a perda da qualidade de todo o sistema, que inclui veículos (ônibus), abrigos e terminais.
E, é claro, contribui para isso o aumento da violência, principalmente com os assaltos dentro de ônibus ou nos abrigos, quando o passageiro espera a chegada do veículo. Com tudo isto, só anda de ônibus quem não tem escolha, quem não tem outra opção de mobilidade.
Daí que o aumento no preço das passagens, que não repõem as perdas financeiras e o equilíbrio econômico que o sistema vem sofrendo ao longo do tempo, é apenas um tiro no pé do Transcol, já defasado em comparação com outros modais, como poderia ser o BRT ou VLT, por exemplo, e que deixa a população da Grande Vitória refém de uma concepção de mobilidade pouco eficiente para os padrões do século XXI.

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovacao e mobilidade urbana tem destaque neste espaco

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