Com voz nitidamente de homem jovem, o enunciador se apresenta: “Brasileiros e brasileiras, aqui quem fala com vocês é o general do Exército do Brasil Eduardo Villas Bôas”. O áudio, compartilhado em grupos de WhatsApp da tradicional família brasileira, tem dois minutos de duração, mas o ouvinte não precisa seguir adiante para constatar a fraude rudimentar, praticamente infantil.
O general em questão, comandante do Exército brasileiro, é um homem idoso (tem 66 anos), como aliás o é quase todo general. Diga-se de passagem, se um militar atingisse tal patente em tão pouca idade, poderia ser considerado o Napoleão Bonaparte brasileiro: um prodígio inaudito. Mas desconte-se a questão da idade. Desde quando o chefe do Exército grava áudios para “os brasileiros e brasileiras” no WhatsApp?
Se você quiser seguir em frente e saber o que o general fake tem a dizer, vai descobrir o seguinte: “Dia 31 (hoje), a partir das 8 horas da amanhã, nós iremos intervir. Nós iremos destituir o presidente junto com o Congresso Nacional e o Judiciário. Devido à corrupção que se instalou neste país, faremos um governo interino e garantiremos a ordem e a segurança”. Que beleza! Golpe com dia e hora marcados e previamente anunciado a todo o povo.
Trata-se, pois, de uma gravação infame. Mas antes fosse um caso isolado.
Na verdade, a mensagem fake do “jovem Villas Bôas” é só mais um exemplo de um fenômeno muito maior, uma campanha oportunista que se aproveita da boa-fé das pessoas e da simpatia de parte da população pelo movimento dos caminhoneiros para propagar uma ideia ainda mais bizarra que o referido áudio: a tal “intervenção militar”, eufemismo para golpe de Estado dirigido pelas Forças Armadas, como “única solução” para os problemas do Brasil neste momento.
Pegando carona na boleia do movimento, no relativo sucesso da paralisação e no clima de caos espalhado pelo país, não faltam aproveitadores infiltrados no movimento movidos por interesses políticos dissimulados. No caso em análise, o objetivo é gerar ainda mais instabilidade em um governo já claudicante e que não se cansa de tropeçar nos próprios erros, promovendo o “quanto pior, melhor” a fim de reabrir a estrada para a volta dos militares ao poder central.
Enquanto esse e outros áudios, montagens e fake news circulam pelo país, caminhões seguiam parados nas estradas até a noite de ontem, a não ser em carreatas lotadas de carga política, clamando, por exemplo, pela “intervenção militar constitucional”. Na terça-feira, manifestantes chegaram a iniciar abaixo-assinado pedindo a intervenção. Estamos diante do golpe de Estado mais democraticamente organizado da história!
Mas o pior de tudo é que muitas pessoas incautas acreditam MESMO não só nesse tipo de mensagem fake como também na ideia que ela propaga (eu mesmo recebi o tal áudio em um grupo).
1. As pessoas estão predispostas a acreditar em qualquer bobagem ou informação fictícia desde que esta confirme alguma convicção que já trazem consigo. Não chega a surpreender, dado o primarismo da formação política do brasileiro médio. Em termos de educação política, nosso povo sofre de indigência.
2. Há dias, o movimento dos caminhoneiros deixou de ser o movimento dos caminhoneiros (se é que, em algum momento, foi uma manifestação autêntica e espontânea da categoria). A greve, legítima na sua pauta, foi cooptada e capturada por interesses políticos tanto da esquerda pró-Lula como, no caso em apreço, da extrema direita bolsonarista/intervencionista.
3. A semente do autoritarismo segue incubada no espírito de uma parte assustadoramente expressiva do povo brasileiro. A redemocratização não arrancou pela raiz a paixão por soluções autoritárias, que incluem a repressão, a violência de Estado e o culto à farda no poder. Ao contrário, ela sempre esteve ali, como raiz de uma planta carnívora, só esperando “a hora certa” para voltar a crescer. E agora, num momento que combina três componentes (profunda crise política/governo inoperante, crise econômica e convulsão social), essa planta do autoritarismo encontra o terreno perfeito para voltar a ramificar e frutificar.
Não, não temos Napoleões no Exército brasileiro, mas estão sobrando Napoleões de hospício na sociedade civil. Então, mais uma vez, é preciso colocar as coisas no devido lugar.
É o que tentaremos fazer na quinta-feira (31).