Agora não vai mais bastar o fiscalismo e o liberalismo do
ministro Paulo Guedes. O Brasil vai precisar também cuidar da governança ambiental, da pobreza e da desigualdade. O
encontro de Davos reforça os sinais de um ponto de inflexão nos rumos do capitalismo.
Como já havia feito no ano passado, Larry Fink, do BlackRock, o maior fundo do mundo, conclamou a cúpula financeira mundial para mudar o rumo do dinheiro para investimentos e países que tenham governança ambiental e compromisso com o combate às mudanças climáticas.
É o capitalismo de “stakeholders”, o chamado “capitalismo consciente”, voltado para criar valor para a sociedade. A ideia de que as empresas ofereçam não apenas lucros financeiros, mas também contribuição positiva para a sociedade, olhando clientes e consumidores, além de acionistas e executivos.
Ter propósito social. Sem isso, sem gerar benefícios sociais e ambientais, as empresas fracassam e o capitalismo dá marcha a ré. É a narrativa de Fink, que Davos abraçou e os investidores institucionais e as bolsas também.
Com o capitalismo no divã, a agenda de Paulo Guedes e do Congresso Nacional vai precisar de ajustes nos próximos três anos. Perde força a narrativa de Milton Friedman – a do consenso do lucro acima de tudo, com a primazia do acionista e do executivo, que definiu o capitalismo anglo-saxão por 50 anos até a crise de 2008.
Entra agora a narrativa de Fink, baseada em hábitos de investidores, inclusive a geração dos millennials e a geração “Z”. Juntas, estas duas gerações já representam 63.5% da população mundial. É o zeitgeist de Greta Thunberg.
O Congresso Nacional volta às atividades nesta semana. As reformas estão na pauta. A tributária, a administrativa e o pacto federativo, por exemplo. É preciso ajustar a pauta. Ainda mais em ano eleitoral, quando os políticos gostam de votar “sacos de bondades”.
A previsão de crescimento de 2% a 2,5% da economia brasileira não está “dada”. O crescimento não está ancorado e contratado. Não sabemos nem mesmo qual é o PIB potencial hoje.
O crescimento brasileiro vai precisar de capitais privados. É aí que entram os sinais de Lary Fink e de Davos. Investidores internacionais voltam a mostrar simpatia pelo Brasil. Mas têm sempre um “se”, condicional, em suas intenções de investir no Brasil: “se” fizer as reformas e “se” tiver governança ambiental.
“Eppur si muove!” (Mas ele se move), como disse Galileu Galilei. Aqui, seria o capitalismo em busca de reinvenção?