É preciso amor pra poder pulsar / É preciso paz pra poder sorrir / É preciso a chuva para florir (Almir Sater)
A recente alta do preço da carne de boi num país continental como o Brasil, com forte tradição na produção de proteína animal, é algo espantoso, mas que serve de alerta tanto para a população quanto para os governos federal e estaduais. A principal razão do aumento no preço da carne, como se sabe, foi a maior demanda da China, esvaziando os estoques dos frigoríficos brasileiros. A isso, se soma a diminuição do rebanho em determinadas partes do país, em função da escassez de chuvas nos pastos nessas regiões.
O agronegócio não só é o principal item da balança comercial brasileira, como tem demonstrado ganhos de produtividade graças às inovações implantadas por muitos produtores rurais incentivados e apoiados pelas pesquisas de instituições como a Embrapa e, no caso do Espírito Santo, o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper).
Mas apesar dos recordes de produção de grãos, frutas ou proteína animal, muitos brasileiros passam fome e/ou se alimentam mal, com graves consequências econômicas e sociais para o país. A questão é que nossa produção agropecuária, com muitos itens sendo commodities com preços cotados em dólar na bolsa de valores, atende aos mercados mais rentáveis, afinal estamos num país capitalista e, portando, não possui foco social, sendo esse atendido tão somente pelos resquícios daquela produção.
O problema é que o estômago chinês será cada vez maior, demandando alimentos de todo o mundo, e principalmente do Brasil. Estamos, portanto, diante de algo que pode ser tanto ameaça como oportunidade. Segundo projeções da ONU, a população mundial ainda crescerá ao longo das próximas décadas, o que exigirá o aumento na produção de alimentos, o que pode colocar o Brasil em posição vantajosa no mercado global.
Aqui é importante ressaltar que o ganho de produtividade brasileiro se deu sem a necessidade de expansão de terras agrícolas, mas apenas pela maior eficiência no processo que vai da colheita ao plantio (como sempre é noticiado pela imprensa, nosso gargalo é a infraestrutura, com péssimas rodovias e portos deficientes, e a burocracia, que aumentam os custos até que a produção chegue aos consumidores, sejam eles brasileiros ou estrangeiros).
O Brasil possui, portanto, todas as condições de ser líder em alimentar o mundo, desde, claro, que não se esqueça que também é fundamental prover comida aos próprios brasileiros. Temos bons solos e um bom clima. Não obstante, como todo produtor rural sabe, não há nada tão importante como a chuva que vem do céu. Sem água da chuva, o gado morre de sede e as plantas não florescem. E é a água da chuva que também enche nossos rios, de onde tiramos diariamente nossa água de beber.
A fartura pluviométrica e hidrológica brasileira provém, em boa parte, da Amazônia, que manda umidade para as demais regiões do país, provocando chuvas e enchendo os rios. Além disso, a Amazônia é reserva de oxigênio não só para o Brasil, como para o mundo (daí o interesse de algumas nações em preservá-la, sem querer interferir com isso na questão da soberania nacional).
Não faz muito tempo que o país ficou refém do tomate, cujos preços se elevaram acima da média, provocando aumento na inflação, afetando principalmente a população mais pobre, tal como ocorre agora com a carne.
Que sejamos sábios e possamos produzir bastante, alimentar dignamente a todos, inclusive os chineses, e preservar a natureza, que afinal é de onde tudo provém.