No estande de uma multinacional, na recepção de um jantar para ricos e famosos ou no lançamento de uma linha de roupas. Quem trabalha em eventos, como recepcionista, muitas vezes chamada de hostess, precisa, em geral, estar bem vestida e se mostrar prestativa. Para receber bem os convidados, simpatia é fundamental. Essa habilidade, no entanto, nem sempre é correspondida de forma apropriada, e mulheres nessa posição acabam expostas a situações de assédio sexual. O abuso pode vir com um pedido insistente de telefone, um suposto elogio que se torna inconveniente ou um contato físico indesejado.
A revelação dos bastidores de um jantar beneficente de políticos e executivos londrinos — descritos do ponto de vista dessas recepcionistas — chocou o Reino Unido no último mês por meio de uma das reportagens mais lidas e comentadas do jornal britânico Financial Times. Uma repórter infiltrada relatou a dinâmica de assédios em uma festa exclusiva para homens poderosos. O GLOBO ouviu profissionais brasileiras que atuam em ambientes dominados por homens de negócios. Elas relatam uma realidade parecida.
Com mais de dez anos de experiência, a hostess Renata Merola, de 29 anos, conta que já lhe ofereceram dinheiro em troca de algo além de seu trabalho.
— Eu trabalhava em um hotel e um hóspede bem mais velho, que parecia ter muito dinheiro, me elogiava muito, falando que eu era bonita. Em um determinado momento, parou e perguntou quanto eu queria para ficar com ele. “Te dou um avião, um carro, quanto você quer?”, ele perguntava. — lembra a moça, estudante de marketing. — Eu disse que não fazia esse tipo de trabalho, e ele me perguntou se eu sabia com quem estava falando. Fui o mais educada possível, mas dei meu recado. Ele ainda fez uma reclamação para o gerente, dizendo que eu era arrogante.
Renata diz que, nesse trabalho, é até possível agradecer elogios e seguir em frente. O mesmo não ocorre com comentários grosseiros numa relação que deveria ser estritamente profissional:
— As pessoas acham que, como esta é uma função que exige que sejamos simpáticas, há abertura para atitudes invasivas. Todas as mulheres estão expostas a isso, mas nessa posição mais ainda.
TRABALHO COMUM PARA ESTUDANTES
Trabalhar como hostess pode ser uma forma de complementar renda para jovens estudantes. Foi o que aconteceu com Fernanda (nome fictício), que hoje trabalha como gerente de banco. Aos 20 anos, ela fazia trabalhos temporários como recepcionista para custear a faculdade. Trabalhando em um desfile, um homem disparou cantadas insistentes e, não satisfeito, passou a mão entre suas pernas.
— Eu congelei, não consegui falar nada. Era muito nova. Em geral, as recepcionistas têm pouca idade e lidam com coisas para a quais não estão preparadas — conta. — Os homens mais velhos acham que todas as meninas ali estão disponíveis. Em alguns casos, agem como se elas fossem aceitar qualquer proposta.
Tendo trabalhado por dez anos como hostess antes de abrir sua própria agência, Patricia François destaca como pode ser cansativo ficar horas a fio em cima de um salto alto, sorrindo e sendo prestativa. Em sua agência, a François, há cerca de 10 mil pessoas cadastradas, entre homens e mulheres de diversas faixas etárias, nenhum menor de idade. O cadastro, feito apenas pessoalmente, reúne muitas informações, como medidas do corpo, busto e quadril, peso e altura, até habilidades, como dançar ou andar de skate, além de capacitação, como quais idioma fala e se tem alguma formação. Os dados ficam armazenados em um banco e os profissionais são escolhidos de acordo com o pedido do cliente. Patricia admite que beleza é um atributo muitas vezes requisitado, como em feiras ligadas ao mercado fitness, por exemplo.
Para evitar problemas com o assédio, Patricia recomenda às moças que contrata que fiquem atentas e, por outro lado, faz uma triagem cuidadosa dos clientes.
— Há eventos que não faço para não expor minha agência e quem trabalha comigo — diz ela, lembrando um caso antigo. — Um cliente disse que levaria, além das minhas recepcionistas, mulheres que fariam outras coisas além desse trabalho. Ele disse: ‘Se um convidado vier pegando na mão, elas têm que sorrir’. Quando falei que não trabalharia mais, fui ameaçada. Mas larguei o trabalho porque nenhum dinheiro paga o respeito.
Há agências criadas para contratar mulheres interessadas no chamado book ou ficha rosa, quando as recepcionistas aceitam convites. Essas agências geralmente procuram candidatas pela internet. A hostess Jessica Coimbra já recebeu propostas desse tipo. O recrutador puxa assunto através de uma rede social e usa abordagens indiretas.
— Quando o empregador faz perguntas como “você faz todo tipo de trabalho?”, já sabemos onde ele quer chegar — diz Jessica, que trabalha como hostess.
Patrícia explica que a remuneração varia muito, dependendo da carga horária trabalhada, mas não se ganha muito. Como em geral o trabalho é por evento, não há vínculo empregatício. Por isso, as jovens têm receio de denunciar casos de assédio e ficarem “queimadas” no mercado.
Por outro lado, a crescente visibilidade das denúncias, como as do movimento #MeToo, tem contribuído para o fortalecimento das vítimas. Renata Merola não acredita que a mentalidade masculina esteja mudando, mas percebeu que muitos homens estão intimidados:
— Quando comecei, muitas abaixavam a cabeça em episódios de assédio. Escutávamos dos próprios contratantes que tínhamos que aceitar. Hoje, elas reclamam, chamam o segurança, se for preciso. Os contratantes acabam ficando do nosso lado. Isso inibe os assediadores.
Vânia Tavares, diretora da Fagga l GL events Exhibitions, empresa que promove eventos como Bienal do Livro Rio, Mondial de La Bière e Rio Content Market, confirma que os contratantes estão mais atentos a essa questão:
— Contratar apenas mulheres e vesti-las de forma sensual é ruim, não só para o público feminino, mas também para o evento. É uma estratégia antiga e ineficaz, pois quem se aproxima do estande por esse motivo normalmente não está interessado no que a marca tem a apresentar — afirma Vânia. — Há alguns anos desenvolvemos um manual do expositor para orientar as marcas nesse sentido. O mais eficiente é que profissionais de recepção usem uniformes modernos, mas discretos, para evitar uma exposição apelativa das mulheres e abordagens desagradáveis.
Ainda assim, denunciar o assédio em situações profissionais é difícil. Envolve a dificuldade de provar, o receio de que ninguém acredite, a vergonha ou o medo de retaliações. Um sinal disso é o baixo número de denúncias que chegam à Justiça. Um levantamento do Ministério Público do Trabalho mostra que, entre 2012 e 2017, foram registradas apenas 1.478 denúncias de assédio sexual no trabalho em todo o país.
— Para todos os crimes contra a mulher, de cunho sexual principalmente, ainda há uma culpabilização da vítima — diz a advogada e mestre em sociologia jurídica Marina Ganzarolli, lembrando que muitas vezes a mulher tem dúvidas se um episódio foi ou não assédio. — Quem tem a resposta é a vítima. Estamos tão acostumadas a aceitar certas coisas, que, às vezes, precisamos de ajuda para pedir ajuda. Se não consegue procurar uma psicóloga ou advogada, uma amiga pode fazer isso.
MEMÓRIA: UM JANTAR COMO NENHUM OUTRO
Duas repórteres do britânico “Financial Times” foram infiltradas como hostesses ao 33º Presidents Club Charity Dinner, jantar beneficente só para homens, no dia 18 de janeiro. Reportagem assinada por uma delas relatou que homens faziam propostas sexuais e tocavam repetidamente pernas, nádegas e quadris das recepcionistas. Uma mulher disse que um convidado teria mostrado seu pênis a ela. Ao serem contratadas, as jovens foram “alertadas” de que os convidados poderiam ser “incômodos” e que o uniforme teria que incluir “sapatos pretos altos” e lingeries combinando. O pré-requisito para contratação era ser “jovem, alta, magra e bonita”.