Sair
Assine
Entrar

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

  • Início
  • Capixaba luta para voltar a andar após grave lesão em jogo no Irã

Marcela Scaramella

mscaramella@redegazeta.com.br

Publicado em 14 de Novembro de 2018 às 18:32

Publicado em

14 nov 2018 às 18:32
O zagueiro Leandro Padovani em recuperação no Irã Crédito: Acervo pessoal
Aquele 24 de fevereiro de 2018 seria um dia especial para o capixaba Leandro Padovani. O zagueiro voltava ao time titular do Esteghlal justamente diante do Foolad, clube onde atuou por dois anos. O jogo da primeira divisão Campeonato Iraniano, porém, deixou marcas: o jogador, natural de Castelo, teve uma grave lesão na coluna cervical em campo e hoje, nove meses depois, ainda tenta recuperar o movimento das pernas.
Há seis anos no futebol do Irã e com passagens por clubes como Brasiliense, Gama e Volta Redonda, Leandro estava acostumado com pequenas lesões. Por atuar na defesa, choques e divididas com adversários eram bastante comuns. “Operei joelho, cortei supercílio, já sofri muitas pancadas, tudo normal. Mas nunca tinha visto uma lesão como a minha.”
Era o sexto jogo da temporada e ainda no primeiro tempo, o zagueiro teve um choque de cabeça com outro jogador e apagou. Ele já caiu desacordado, o que pode ter agravado ainda mais a situação. Durante o socorro em campo, os médicos ficaram preocupados com a cabeça de Leandro.
“Eles não fizeram o transporte e socorro adequados, não imaginavam que o problema era na coluna. Me mandaram para o hospital e não constataram nada na cabeça com os exames, mas sim na coluna cervical. Eu não lembro de nada, só acordei no dia seguinte.”
O que houve foi o deslocamento da vértebra C6 com a C7 e, com isso, uma lesão na medula. A cirurgia era uma urgência e não havia tempo a perder. Eis que um “anjo” surge na vida do capixaba: o neurocirurgião iraniano Eydi Abdolkhani, que estava de férias a pouco mais de 50km de distância do ocorrido. Ao ser contactado pelo hospital, o médico não pensou duas vezes: abriu mão do descanso, pegou o carro e foi operar o jogador.
“Queriam me transportar para Teerã (capital do Irã), mas são mais de 1.000 km e era uma situação de emergência. Foram mais de seis horas de cirurgia. O problema não foi só o deslocamento da vértebra, mas a medula também estava sendo comprimida. Se não fosse ele, não sei o que teria acontecido comigo”, disse Leandro no telefone, que precisou relatar os detalhes da lesão com a ajuda do irmão Alessandro, da esposa Larissa e da cunhada Rana. “Tenho alguns assessores me ajudando, são muitos termos (risos)”, brincou.
Tratamento na Cruz Vermelha
Leandro Pavodani tem os movimentos da cintura para cima, conquista que veio com o tempo. Depois de muita fisioterapia, ele já consegue segurar o celular, copo e fazer outros gestos comuns do dia a dia. Do quadril para baixo, o capixaba tem a sensibilidade do toque das pernas, mas ainda sem forças.
Ele faz fisioterapia na Cruz Vermelha, centro que recebe até sobreviventes de guerra, e planeja voltar logo ao Brasil para tentar tratamento no Sarah Kubitschek, em Brasília, o maior centro de reabilitação medular do Brasil.
Por ainda não conseguir andar e muito menos jogar bola, o zagueiro hoje faz parte da comissão técnica do Esteghlal. O clube é quem custeia o tratamento, transporte e a moradia do jogador. Mas nem sempre foi assim. A lesão foi em fevereiro e em maio o contrato terminaria. Nesse meio tempo, o time prometeu “mundos e fundos”, mas não cumpriu.
“Durante a recuperação o clube falava que renovaria, que não deixaria de ajudar. Eles prometeram apartamento maior, enfermeiro, mas sumiram quando saímos do hospital. Um dia meu irmão comentou essa situação na televisão e deu uma repercussão absurda no país, inclusive com torcedores de outros clubes. Nesse meio tempo mudou a diretoria. O clube se mexeu e ofereceu um novo contrato para ele, agora na comissão técnica, além de um apartamento maior e melhor”, contou Alessandro.
Voltar a jogar bola? O capixaba evita tocar no assunto futebol. O principal objetivo agora é recuperar a saúde e voltar a andar. Antes da lesão, ele já planejava pendurar a chuteira em mais um ou dois anos e virar treinador de futebol. Esse sonho segue vivo, independente de qualquer coisa.
Leandro saiu cedo do Espírito Santo, com apenas 13 anos. Fez um teste no Gama em 2000, passou e transformou Brasília em sua segunda casa. Mas o coração do zagueiro também tem um grande espaço reservado ao Irã.
“Quero tentar meu tratamento no Sara Kubitschek, em Brasília, e futuramente tenho a intenção de voltar para o Irã. As pessoas acham que aqui é bomba, guerra toda hora. Mas há seis anos eu nunca vi um assalto, um homicídio. É um país muito seguro, que me acolheu muito bem. Para quem gosta de cultura, história, o Irã é um prato cheio”.
Irmão mais novo deixou o futebol para dar mais apoio
O zagueiro Leandro Padovani conta com o apoio do irmão, Alessandro Celin, na recuperação no Irã Crédito: Acervo pessoal
O processo de recuperação não tem sido fácil. Mas se o pior já passou, Leandro Padovani tem muito a agradecer. O zagueiro de 34 anos está tendo apoio incondicional do irmão mais novo, Alessandro Celin, que abriu mão do futebol na Indonésia para cuidar dele no Irã.
“Antes do jogo desejei boa sorte ao meu irmão e fui dormir. Vi o vídeo no dia seguinte e só depois de dois dias consegui falar com meu irmão. Quando ele disse que não sentia as pernas fiquei sem chão. Pedi uns dias ao meu clube e vim visitá-lo. Quando eu o vi naquela situação, resolvi rescindir com meu time e ficar.”
E é Alessandro quem, literalmente, segura o irmão de nada menos que 1,94m. “O que ele fez por mim é fora de sério. Tem que ir para a fisioterapia, tem que entrar e sair do carro, tem que segurar para eu andar na paralela. Minha esposa sozinha não teria condições, então meu irmão abriu mão do trabalho dele para me ajudar nessa caminhada. Gratidão eterna pela atitude extraordinária dele”.
Em meio à tanta luta, o zagueiro dá uma lição de otimismo, fé e força. O momento é de reflexão: de pensar no que passou e no que está por vir.
“Depois que tive a lesão passei a ver o mundo de outra forma. Antes eu pensava: ‘Amanhã vou levantar e fazer isso, aquilo’. Hoje eu levanto e vejo qual movimento posso melhorar, o que vou conseguir segurar", disse ele, que ainda completou.
O dia a dia é interessante, mas é cansativo. Quando seu corpo funciona normalmente, você não dá valor para pequenas coisas. Depois das limitações você passa a perceber. Mas tudo na vida tem um porquê, nada é por acaso. O mais interessante é saber lidar com as adversidades. Nós estamos nessa vida de passagem, nossa maior virtude é a força de vontade.
Leandro Padovani
Visita ilustre
Na luta para recuperar o movimento das pernas, Leandro Padovani recebeu a visita de Zico. O ex-jogador estava no Irã com seu time, Kashima Antlers, para a final da Liga dos Campeões da Ásia. “Achamos que seria só uma foto, mas ele quis saber nossa história e disse que está à disposição para ajudar, ainda deu uma camisa do Kashima. Foi emocionante".
O zagueiro Leandro Padovani e sua família se encontraram com Zico Crédito: Acervo pessoal

A Gazeta integra o

Saiba mais
Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

© 1996 - 2020 A Gazeta. Todos os direitos reservados