Favorito na corrida eleitoral ao governo do Estado, o ex-governador Renato Casagrande (PSB) foi arrastado para fora da zona de conforto a três dias do primeiro turno, no debate promovido pela Rádio CBN na quinta-feira (04), em parceria com A GAZETA e Gazeta Online.
Liderando com folga a disputa, segundo as mais recentes pesquisas do Ibope e do Instituto Futura, o ex-governador vinha tendo, até esta última semana, uma campanha relativamente tranquila, sem sofrer grandes ataques nem cobranças intensas por parte dos adversários.
Nesta semana isso mudou, com o debate promovido pela TV Gazeta na última terça-feira e, principalmente, o de quinta-feira (04). Os adversários de Casagrande souberam usar a oportunidade para fazer ao ex-governador cobranças que precisavam mesmo ser feitas e questionamentos que ele precisava mesmo responder, sobretudo considerando suas grandes chances de voltar ao Palácio Anchieta. Alguns compromissos importantes foram registrados (leia a coluna de Beatriz Seixas, na página 15); em outros casos, Casagrande preferiu não se comprometer.
Como no debate da TV Gazeta, a senadora Rose de Freitas (Podemos) preferiu se concentrar nos próprios feitos, poupando Casagrande de ataques. Assim, o “todos contra Casagrande” coube aos demais: Jackeline Rocha (PT), André Moreira (PSOL), Aridelmo Teixeira (PTB) e Carlos Manato (PSL) se revezaram nesse papel, com destaque para os dois últimos, que até “tabelaram” em dado momento para acertarem Casagrande indiretamente.
Desse modo, Casagrande se viu forçado a dar algumas explicações.
Um exemplo foi a cobrança de Moreira ao socialista, por conta da resolução aprovada pelo Tribunal de Contas do Estado em 2012, durante a administração do ex-governador, que autorizou o governo a aportar dinheiro que deveria ser investido em educação para cobrir o déficit da Previdência estadual. A partir de denúncia do deputado Sergio Majeski (agora no PSB), a Procuradoria-Geral da República entrou com Ação Direta de Inconstitucionalidade contra essa resolução no STF.
“Está na hora de você reconhecer esse erro junto com Paulo Hartung e se comprometer a devolver esse dinheiro para a educação. Vamos fazer esse compromisso?”, convidou Moreira. “Se existe divergência, o Tribunal de Contas tem que resolver isso com o STF. Meu governo seguiu as regras e tivemos todas as contas aprovadas. Segui o que o tribunal obrigava na época”, esquivou-se Casagrande.
Já Aridelmo e Manato focaram em promessas não cumpridas por Casagrande no governo dele e que agora voltam à tona. “Por que ficar iludindo o povo e dizendo que vai fazer uma vez que não fez quando foi governador por quatro anos? Por que essa necessidade de transmitir essa insegurança à nossa população?”, questionou-o Aridelmo, referindo-se a obras como BRT, Quarta Ponte e Cais das Artes. Casagrande retrucou que seu governo fez os maiores investimentos da história na área social e que Aridelmo, antes elogioso a seu governo, virou seu crítico depois que se tornou candidato. “É isso que desgasta a política. Ele infelizmente está começando, mas está começando de forma muito velha”, rebateu o ex-governador.
Manato seguiu linha parecida à de Aridelmo, mas sublinhando a área da segurança. “Você falhou no quesito segurança, por isso foi reprovado nas urnas. Por que agora o capixaba deve acreditar que você vai resolver o problema da segurança?” De novo, Casagrande respondeu com investimentos. “Fizemos um investimento na área de segurança pública como jamais tinha sido feito. Puxei para o meu comando da área de segurança pública. O governador é que tem que liderar. E eu liderarei como já fiz da vez passada e retomaremos o programa Estado Presente porque ele deu resultado.”
Curiosamente, Manato e Jackeline, em polos políticos opostos, uniram-se na mesma cobrança a Casagrande, pelo elevadíssimo índice de feminicídios durante a sua administração. Manato expôs alguns números e provocou: “Quem está mentindo? Você ou o Gazeta Online?”. Casagrande não engoliu o sapo e devolveu o ataque citando os gastos de Manato com verba de gabinete.
Enquanto todos o procuraram, Casagrande visivelmente evitou o embate com Aridelmo, Manato e Moreira – um campo minado para ele. Fugindo do trio, dirigiu uma pergunta a Jackeline sobre o combate à criminalidade. E ouviu de volta da petista: “Foi na sua gestão que tivemos os piores processos de repressão nos últimos tempos contra professores e estudantes”.
Casagrande pode até confirmar seu favoritismo e liquidar a parada em 1º turno no domingo. Mas não se poderá dizer que saiu totalmente ileso de questionamentos importantes na campanha. Também nesse sentido, o debate cumpriu bem seu papel.
Saúde é o que interessa
Rose demorou, mas finalmente encontrou um mote claro para a sua campanha. No debate da TV Gazeta, na terça, ela se estabeleceu como a candidata da saúde. Respondendo a uma pergunta de Casagrande sobre mobilidade urbana, afirmou que não é possível gastar recursos em nenhuma obra antes de resolver problemas mais graves como os da saúde pública. “Saúde é prioridade absoluta.”
Se bem que...
“Não só da saúde”, corrigiu Rose, após o debate de quinta-feira (04). “Também sou a candidata da educação, da segurança...”
Tempo livre
No terceiro bloco do debate, Rose confundiu a explicação sobre “tema livre” com “tempo livre”. Na formulação da pergunta para Casagrande, desandou a falar por mais de um minuto e precisou ser interrompida pelos apresentadores. “Vocês não disseram que era tempo livre?”
Sinais, fortes sinais
Rose não “bateu” em Casagrande, porém ela e Manato levantaram a bola um para o outro em uma pergunta sobre a greve da PMES, para criticarem Paulo Hartung pela falta de diálogo que teria culminado com a paralisação, em fevereiro de 2017. “Esses sinais já haviam sido dados desde 2013, à exaustão”, destacou a senadora, tratando Manato com muitas mesuras: “Vossa Excelência, colega e companheiro”.
Guarda compartilhada
Rose também puxou para si o apoio ao projeto que concede anistia irrestrita aos participantes da greve, reafirmado pelo deputado. “Não só estarei defendendo como apoiando.” A senadora ainda inaugurou uma “disputa” com Manato pela maternidade do projeto. “Sou autora da anistia, junto com o senador Paulo Teixeira”, disse Rose – referindo-se, na verdade, ao deputado federal pelo PT.
De Carlos Manato
“Eu sou contra a greve. Acho que não pode ter greve em setor nenhum.”
Artigo 9º
O Artigo 9º da Constituição (constante do Capítulo II, que trata dos direitos sociais dos cidadãos), assegura o direito de greve aos trabalhadores brasileiros.
Artigo 142
Já o art. 142 da Carta Magna (que trata das Forças Armadas), no inciso IV do § 3º, estabelece uma exceção importante: proíbe a sindicalização e a greve justamente aos militares – por conseguinte, aos policiais militares.
Cheiro de arquivamento
Quanto aos processos administrativos abertos pelo governo Paulo Hartung contra policiais que participaram do movimento, Manato indicou que arquivá-los será um de seus primeiros atos como governador. “Eu, governador, no dia 2 vou resolver junto com a Assembleia.”
Austericídio
Quem também compareceu aos debates da TV Gazeta e da CBN foram os trocadilhos. Na terça, Aridelmo disse que o governador tem que ter gestão em vez de ser “gastão”. Na quinta-feira (04), criticando a política de austeridade fiscal de Temer (e de PH), Moreira lançou o termo “austericídio”.
Direita e esquerda na paz
Apesar das profundas diferenças ideológicas, Manato e André Moreira, posicionados lado a lado em um canto do palco, se trataram de maneira amistosa e até trocaram risadas em alguns momentos do debate. Quem dera todos os candidatos e respectivos militantes sempre agissem assim nas ruas e nas redes sociais...
Diferentes, pero no mucho
Falando em diferenças, o debate reservou uma tabelinha curiosa entre Aridelmo e Manato. Embora com visões e programas distintos para a educação, os dois se uniram para atacar o governo de Casagrande por esse flanco. Ressaltaram a queda do resultado do Espírito Santo no Ideb durante o governo do socialista.