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Childish Gambino desvenda a América racista em videoclipe

Durante os quatro minutos do vídeo é possível acompanhar ferrenhas críticas à história americana e como trataram os negros desde o princípio

Publicado em 11 de Maio de 2018 às 22:25

Públicado em 

11 mai 2018 às 22:25

Colunista

*Munah Malek
Donald Glover, ou Childish Gambino, como preferir, é ator, roteirista e criador da premiada série “Atlanta”. Na última semana, seu recém-divulgado clipe “This is America” (“Essa é a América”) teve mais de 10 milhões de visualizações em 24h (até a tarde de ontem, já eram 77 milhões). Enganam-se os que acreditam se tratar de um simples truque publicitário ou autopromoção do norte-americano. O que Gambino fez foi criticar explicitamente o racismo e o extermínio da população negra em formato audiovisual. Dito em outras palavras, uma crítica direta à suposta democracia racial e à supremacia branca. O racismo não foi superado. Glover assume seu lado, levanta a sua bandeira e não foge à luta.
Donald Glover no clipe de "This is America" Crédito: Divulgação/Childish Gambino
A América, ainda não recuperada do golpe da cantora pop Beyoncé, que em 2016 exaltou sua negritude em seu single “Formation”, agora assiste ao triunfo de mais um artista negro – que não fala apenas em dinheiro, prostitutas e carros importados, mas de política. Glover acerta o golpe diretamente na branquitude acrítica. Quem sonha na América enquanto a “mama afroamericana” não dorme com medo da bala policial encontrar o corpo-preto-alvo de seu filho? “This is America” é também sobre violência policial, porte de armas (no clipe, por exemplo, as armas são mais bem tratadas que os corpos dos mortos) e extermínio da juventude negra.
Nina Simone, célebre não só por sua inquestionável qualidade musical mas ainda por seu ativismo na luta contra o racismo e pelos direitos civis da comunidade negra americana nos meados de 1950 e 1960, disse: “Escolhi refletir o tempo e as situações em que me encontro. Para mim, isso é o meu dever, e neste momento crucial de nossas vidas, quando tudo é tão desesperador, quando tentamos apenas sobreviver a cada dia, não tem como não se envolver. Jovens e negros sabem disso, e é por isso que estão tão envolvidos com a política. (...) Não se tem escolha... Como ser artista e não refletir a época?”.
No clipe permeado por simbologias em primeiro e segundo plano, Childish Gambino aparece sem camisa, só de calça (parecida com a usada pelos integrantes da Confederação, grupo de seis Estados do país que buscava independência para impedir a abolição da escravatura), em um galpão cinza. A atmosfera do vídeo muda rapidamente e vai da calmaria ao caos. Glover dança, faz careta e sorri enquanto realiza disparos à queima-roupa e repete “This is America” (Essa é a America). Todas as vítimas são negras. A arte imita a vida? Durante os quatro minutos do vídeo é possível acompanhar ferrenhas críticas à história americana e como trataram os negros desde o princípio, além de episódios de massacres de motivação racial, vale a pena conferir detalhe por detalhe. A mensagem é clara: é preciso tomar partido na luta.
Por aqui, longe de sermos uma África do Sul sem apartheid ou uma América sem segregação, e ainda que haja quem acredite na democracia racial, mas não em unicórnios voadores, seguimos bem representados pelas vozes de MC Carol, Rincon Sapiência, Emicida, Rashid e tantos outros que, abertamente, como o fez Childish Gambino, não fogem à luta.
*Autora é é socióloga e mestra em História.

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