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Coluna Abdo Filho

Brasília dá aula de irresponsabilidade (de novo)

Governo Lula e Congresso Nacional, com amplo apoio da oposição, estão muito mais preocupados com as eleições do que com as contas públicas e o futuro do país

Publicado em 11 de Junho de 2026 às 18:14

Públicado em 

11 jun 2026 às 18:14
Abdo Filho

Colunista

Abdo Filho

afilho@redegazeta.com.br

Palácio do Planalto e Congresso Nacional, em Brasília ROBERTO STUCKERT FILHO/PR

A sociedade brasileira se acostumou a (sobre)viver sob juros altos. Claro, a custos sociais e econômicos bastante elevados. Não por acaso estamos viciados em crescer pouco. Quem vai investir pagando taxas reais de mercado que se aproximam de 20% ao ano?! Difícil... Do início da década para cá, a coisa piorou. A última vez que tivemos Selic abaixo de 10% (o que já não é pouco) foi em fevereiro de 2022. De lá para cá, por duas vezes, em 2023 e 2026, foi ensaiado um ciclo de queda, que não se sustentou. No atual ciclo, quando chegamos a 15% ao ano, o mercado estimava cair para algo perto de 12% ao final de 2026, mas... Pode ser que não alcancemos nem 13%. Se levarmos em consideração uma inflação rodando em 5%, estamos tratando de uma taxa real de juros perto de entre 8% e 10%! Não é brincadeira.

Verdade que a pandemia afetou as cadeias e elevou a inflação e os juros em todo o planeta. Nos Estados Unidos, onde, desde a crise de 2008, a taxa de juros rodava perto de zero (é isso mesmo), chegou a 5,5% e, hoje, está entre 3,5% e 3,75% ao ano com possibilidade de subir. Também é verdade que a guerra deflagrada por Israel e Estados Unidos no Irã é inflacionária, afinal, fez subir muito o petróleo no planeta. Mas a causa principal dos juros altos, esta chaga brasileira, é o desequilíbrio das contas públicas. Nem vou entrar no mérito de onde estão sendo aplicados os recursos, mas observar o quadro geral. Desde meados da década passada que o estado brasileiro gasta mais do que arrecada, ano após ano. Apenas em 2022 as contas ficaram no azul, ou seja, não foi algo estrutural. A dívida pública já supera os 80% do PIB (muito para um país de renda média como o Brasil) e, diante de tudo isso, os juros cobrados para a rolagem da dívida brasileira são elevados.

Com um risco soberano (possibilidade de um governo não honrar seus compromissos) mais alto, todo mundo paga por isso. Os investimentos não saem, nosso crescimento econômico é medíocre (deve ser menor que 2%, abaixo do mundo, bem abaixo da Ásia e abaixo até que a América Latina) e, como consequência disso tudo, a renda média dos brasileiros avança mais devagar que a mundial.

Pintado o quadro, vamos para Brasília, centro das decisões políticas. Nesta semana (até agora), o Senado, com apoio da oposição, aprovou três projetos que elevam os gastos estatais em R$ 215 bilhões. Logo após as votações, o ministro da Fazenda do governo Lula, Dario Durigan, se apressou em dizer que não há recurso para tudo isso e que o governo avalia vetar ou acionar o Supremo Tribunal Federal caso tudo seja validado pela Câmara dos Deputados. Posição contrária e correta. O ponto é que Durigan é ministro do governo que, pelas contas do economista Marcos Mendes, em relatório feito pela XP Investimentos, anunciou 33 diferentes medidas, nos últimos meses, aumentando os gastos em (por coincidência) R$ 215 bilhões. São as chamadas 'bondades eleitorais'.

Repare que a irresponsabilidade não tem coloração ideológica e partidária. Está à esquerda e à direita. O populismo é amplo, geral e irrestrito, o horzonte acaba em outubro, nas próximas eleições. Claro, há os políticos que passam ao largo desse comportamento rasteiro. Importante buscar por eles. A eleição está aí, ou abrimos os olhos para determinadas questões e temos a honestidade intelectual de enfrentá-los (sem ideologia barata e falsos dilemas) ou estaremos fadados à mediocridade por mais alguns bons anos.

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Abdo Filho

Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2005, como estagiario de Entretenimento e Cursos & Concursos. Entre 2007 e 2015, foi reporter da CBN Vitoria e da editoria de Economia do jornal A Gazeta. Depois, assumiu o cargo de macroeditor de Politica, Economia e Brasil & Mundo, ja no processo de integracao de todas as redacoes da empresa. Em 2017, tornou-se Editor de Producao e, em 2019, Editor-executivo.

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