As alegorias do carnaval já chegaram. Por um curto período, as alegorias poderão (ou não) desviar a atenção do povo brasileiro do que anda acontecendo em Brasília: a impressionante escalada da crise de legitimidade dos Três Poderes da República.
Os fatos e evidências que estão todos os dias em todas as mídias mostram que o centro de poder do Brasil anda se distanciando ainda mais da realidade brasileira e das expectativas, desejos e projetos da sociedade brasileira.
A “Ilha da Fantasia” (é assim que Brasília sempre foi denominada pelos brasileiros) está de volta. O “lé” não junta com o “cré”. Há cada vez mais menos sintonia.
O centro de poder se movimenta pela lógica do patrimonialismo e da disputa de poder. No contexto cada vez mais predominante das campanhas políticas para as eleições gerais de 2026. A disputa da construção de narrativas, misturada com a luta pelo modelo de polarização impulsionada. O povo não quer mais, mas as elites políticas querem.
Distante de Brasília, o Brasil real está preocupado é com a sobrevivência e o sossego. Renato Meirelles mostra que as pesquisas recentes do Instituto Locomotiva captaram “uma mudança silenciosa no coração do eleitor”. Diz ele que a política não está sendo decidida por ideologia, mas por organização da vida. “O brasileiro não está pedindo um manifesto; está pedindo um manual de sobrevivência (...) porque a vida real já está difícil demais para virar ringue (...) a democracia, na rua, tem outro nome: 'ordem'”.
Meirellles identifica que a polarização hoje é como fumaça: irrita, cansa e não alimenta ninguém. “A elite acha que a polarização é debate. O Brasil real sabe que é briga”. O brasileiro quer vida, bem-estar e sossego. Tem a sensação de que o Brasil virou bagunça. “De que virtude sem entrega vira sermão. E sermão não enche geladeira”.
Em seu recente livro “Brasil no Espelho”, Felipe Nunes também registra que o brasileiro cansou da polarização, fato que também tenho assinalado aqui desde as eleições de 2020, 2022 e 2024.
A brilhante e inédita pesquisa de Felipe, que resultou no livro, foi realizada em 2023 e mostrou o sentimento de cansaço e insatisfação da sociedade, com a percepção de “vida dura” e constatação de que, agora, a polarização tomou forma mais nítida de “polarização impulsionada” por narrativas eleitoreiras.
Mas a “polarização impulsionada” é apenas um dos sintomas do distanciamento de Brasília do Brasil. Nossas elites também precisam compreender melhor três outros fenômenos de sociedade em movimento no país. Nossa antropologia e sociologia política – digamos.
Primeiro, o fato cultural de que nós, brasileiros, vivemos com (e das) “sutilezas de nossas contradições”. Várias contradições: cordialidade x violência; “jeitinho” x regras e leis; mestiçagem x racismo; resiliência x apatia; tradição x modernidade; orgulho do país x síndrome de vira-lata. E por aí vai.
Felipe Nunes também mostra isso no seu “Brasil no Espelho”. A ideia de que somos um mosaico, um país complexo, heterogêneo e predominantemente contraditório. Um país composto por múltiplas identidades, vários eixos de clivagens e pluralidade religiosa.
Nesse contexto, ele mostra que as clivagens geram assimetria entre rótulo e conteúdo. São “combinações singulares de valores e crenças que se cruzam em direções por vezes contraditórias”: conservadores com pautas progressistas; liberais que defendem a intervenção estatal; e militantes de esquerda que acreditam em punições severas”, exemplifica ele.
É a partir desse contexto cultural que outro fenômeno precisa ser mais bem entendido no país. Nosso espectro político é formado por elementos que não são estanques. Precisam ser entendidos como um “continuum”. Direita e esquerda são rótulos imperfeitos. As posições políticas não são estanques e simétricas. Têm várias dimensões e muitas nuances.
Para Elio Gaspari, “com a diluição de rótulos como esquerda e direita, essas classificações perderam eficácia. Para Felipe Nunes, “o eleitorado se reconhece nas etiquetas, mas decide pelo que funciona” (isto é, entregas).
Na sua pesquisa, para efeito de análise, Nunes identificou nove elementos no espectro político. Na sua tipologia, são os seguintes: conservadores cristãos (27%); dependentes do Estado (23%); agro (13%); progressistas (12%); militantes de esquerda (7%); empresários (6%); liberais sociais (5%); empreendedores individuais (4%); extrema-direita (3%).
É ou não é um “continuuum”?
Ao avaliar também a caracterização do eleitorado pelo critério de gerações, Felipe apurou que os nascidos entre os anos 2000/2009, ou seja, o que ele chama de nativos digitais ou geração.com têm perfil e tendência de se afastarem dos extremos políticos e se posicionarem no centro.
Na pesquisa realizada, quando perguntados onde estavam “numa escala de posicionamento ideológico” (os rótulos referências) os brasileiros se identificaram mais com posições ao centro (37%) e à direita (36%). A esquerda é minoritária, com 23%, diz Felipe.
Desde 2017, ele diz que houve um aumento da direita. “A partir de 2019, no entanto, o maior crescimento foi do contingente dos que se dizem de centro, de 26% para 37%, um aumento de 11 pontos percentuais”. Já a direita caiu três pontos desde então, enquanto a esquerda recuou cinco, registra Felipe.
Esse fato de realidade nos remete para um terceiro fenômeno da nossa antropologia e sociologia política. Refiro-me ao fenômeno da ascensão da chamada Cosmovisão Liberal Social, que tenho registrado aqui há algum tempo. É essa cosmovisão que impulsiona o crescimento gradual do centro do espectro político.
Com as evidências reais mostradas nas pesquisas (o crescimento do centro) intuo que esta cosmovisão já é uma espécie de amigo oculto das eleições gerais do Brasil deste ano de 2026. É um fenômeno em formação na sociedade. Um retrato ainda “em revelação” da sociedade.
Pode ter eventual efeito pertinentes nas urnas, em forma de crescimento da alienação eleitoral (brancos, nulos e abstenções) ou em forma de voto de protesto.
Pode até impulsionar, ainda, uma candidatura de corte liberal social pela estrada do centro político (não confundir com Centrão). O centro é relevante. E o chamado centro expandido (mais à direita ou mais à esquerda), mais ainda.
As eleições ainda estão em aberto, apesar da antecipação das campanhas. As presidenciais também estão em aberto. A pesquisa Quaest de fevereiro cravou na pesquisa espontânea: 65% de indecisos nas presidenciais.
O meu espaço aqui “estourou”. Voltarei ao tema do distanciamento de Brasília do Brasil e da corrida presidencial. Estão interligados.
Bom carnaval para todos.