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Economia

Consenso de Londres: o capitalismo não pode ser dinâmico se não for inclusivo

E não pode ser inovador se interesses de manutenção do “status quo” contenham a emergência de novos talentos advindos também da base da sociedade
Antônio Carlos de Medeiros

Publicado em 

20 dez 2025 às 03:30

Publicado em 20 de Dezembro de 2025 às 06:30

Para enfrentar os novos desafios do século XXI, o capitalismo ocidental já precisa combinar os princípios de inovação do chamado neoliberalismo com os princípios de inclusão do chamado estado do bem-estar social. Essa é a antevisão do Consenso de Londres.
Para além dos dogmas. O mundo mudou. Mudaram-se as circunstâncias, ampliaram-se as volatilidades e incertezas da geopolítica e das políticas fiscal e monetária.
A Covid-19 revelou as fragilidades do modelo chamado neoliberal dos EUA e do modelo chamado de bem-estar europeu. As deficiências do sistema social americano. As limitações do sistema de inovação do sistema europeu.
Esta é a síntese da antevisão do Consenso de Londres. A antevisão da necessidade da troca dos dogmas do “ou um ou outro” pela convergência do “um e/ou outro”.
Construir flexibilidade para enfrentar os desafios ampliados no século XXI: mudanças climáticas; perda de biodiversidade; a pandemia da Covid-19; as diversas desigualdades (não apenas econômicas); os efeitos perversos da tecnologia na política (populismo); a destruição criativa; a fragmentação econômica global (desglobalização); a polarização; as guerras; e o declínio da democracia liberal.
O Consenso de Londres antevê que, dados os novos desafios, o capitalismo não pode ser dinâmico se não for inclusivo. E não pode ser inovador se interesses de manutenção do “status quo” contenham a emergência de novos talentos advindos também da base da sociedade.
Para superar dicotomias, o Consenso de Londres aponta políticas públicas que podem impulsionar o capitalismo para mais inovação e para mais inclusão. Através da modernização do mercado de trabalho; da reforma do sistema de educação; e do estímulo à competição empresarial.
O mercado de trabalho moderno requer o estímulo à mobilidade da força de trabalho. Com flexibilidade para demitir e com seguro desemprego temporário. E com aceleração da contínua educação profissionalizante.
A competição requer a contenção dos monopólios e o estímulo à inovação contínua e entrada de novos “players” no mercado, via startups e estímulos às empresas pequenas e médias: “espalhar” a multiplicação da lógica capitalista do empreendedorismo produtivo.
E a educação. Com reforma educacional inclusiva e inovadora (como na Finlândia em 1970). Ampliar as possibilidades para que os mais talentosos se tornem inovadores, desde a base da pirâmide social. Os autores do Consenso de Londres se referem a necessidade de “reduzir a perda de Einsteins” e incorporar talentos da base da pirâmide social.
Na direção do horizonte de um novo capitalismo, o Consenso de Londres vai além do Consenso de Washington, que tinha/tem a essência prescritiva e monolítica da ênfase nos fatores econômicos. O Consenso de Londres amplia o foco e incorpora os fatores institucionais e sociais. A economia política.
Do famoso motto “é a economia, estúpido” para o novo motto em construção: “é a política, estúpido”. Da ênfase no lado da demanda agregada e da eficiência estática, para a ênfase no lado da oferta e da eficácia dinâmica: a geração do crescimento com foco em políticas de desenvolvimento produtivas.
Vem daí a noção de “produtivismo”, um dos pilares do Consenso de Londres, formulado por Dani Rodrik. Ele define o conceito como “disseminador de oportunidades econômicas produtivas em toda a economia e em segmentos da força de trabalho”.
Que se diferencia, segundo ele, do chamado neoliberalismo, porque confere ao governo/Estado e à sociedade civil papéis importantes para atingir os objetivos. Coloca menos crédito na capacidade do mercado “per se” e é cético em relação às grandes corporações.
Foca mais investimentos produtivos e menos financeirização dos lucros (mercado financeiro). Foca, também, o poder econômico multiplicador das cidades e comunidades locais, e menos a globalização.
Vai além do Estado do bem-estar keynesiano – focando menos distribuição e benefícios sociais e gestão macroeconômica e mais criação de oportunidades econômicas através do foco do lado da OFERTA: criar projetos produtivos e gerar emprego e renda, enfatiza Rodrik.
Para além do enfoque keynesiano, novos desenhos de política industrial para o agronegócio, os serviços e a indústria propriamente dita. Produtivismo transversal. Requer condições institucionais. Ou seja, governos aptos para ter capacidade de gerar consenso político e capacidade de impulsionar as entregas produtivas.
Esta visão do Consenso de Londres para o capitalismo ocidental reflete e é refletida pela evolução do capitalismo oriental.
Também no capitalismo oriental – liderado pela China – formou-se uma necessária convergência entre inovação e inclusão. Com o aumento da classe média.
Na geopolítica do Império Ocidental e do Império Oriental – Estados Unidos e China – a resultante em processo de formação é a imbricação (dialética) do capitalismo liberal do Ocidente (Estados Unidos) com o capitalismo político da China.
Por um lado, a consolidação da plutocracia no capitalismo liberal na direção do capitalismo iliberal, com o avanço do trumpismo econômico. O efeito da liderança iliberal de Donald Trump cria uma agenda de impulso ao capitalismo político.
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Mercado financeiro Crédito: Shutterstock
Por outro lado, a consolidação da plutocracia no capitalismo chinês. O poder da nomenclatura partidária no aparato de Estado, combinado com a descentralização da lógica do capitalismo de mercado pelas províncias/cidades do país.
Branko Milanovié, em seu “Capitalismo sem Rivais”, conclui que o domínio do capitalismo como a única maneira de organizar a produção e a distribuição de riqueza parece absoluto. “Não há nenhum rival à vista”.
O chamado espírito capitalista penetrou profundamente na vida individual das pessoas, diz Milanovié. O espírito competitivo e aquisitivo inerente ao capitalismo.
Para ele, o ponto final dos dois sistemas, o capitalismo liberal e o capitalismo político, se torna semelhante: “A unificação e a persistência das elites”, com laços mais estreitos entre o poder econômico e o político.
Capitalismo sem rivais. Com perfil de novo capitalismo.
Agora na direção da superação dos dogmas e rótulos, para ter flexibilidade e enfrentar a miríade de desafios recheados de volatilidade e incertezas, na evolução do mundo digital do século XXI.
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