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Política

Eleições 2022: o mal-estar do brasileiro nos faz lembrar Freud

O “mal-estar da civilização” se refere à teoria freudiana de que o conflito entre as regras sociais e as pulsões primitivas do homem seria a primeira causa dos distúrbios psicológicos daquele tempo. Agora também?

Publicado em 03 de Setembro de 2022 às 00:45

Públicado em 

03 set 2022 às 00:45
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

acmdob@gmail.com

Todo dia tem uma nova tensão. A tensão está no ar. Medos, ódios e incertezas rondam a vida dos brasileiros. Com impulsos primitivos de violência. Em ascensão.
Já sabemos que a queda de desemprego e da inflação e a pequena melhoria na taxa de crescimento de 2022 são resultados com efeitos efêmeros. Efeitos efêmeros estão presentes também no Orçamento da União. Aqui, assistimos ao conhecido truque fiscal do aumento da receita causado pela inflação. Combinado, agora, com o corte das despesas pelo congelamento dos salários do funcionalismo por dois anos, na pandemia. Efeitos efêmeros. A conta vem em 2023.
Já sabemos também que 2023 já está contratado. Deverá ser um ano muito difícil, de crescimento ainda menor do que em 2022 e de continuidade da polarização política. No plano fiscal, o Brasil deve arcar com uma conta adicional de R$ 430 bilhões em 2023, segundo a FGV/Ibre: 4,2% do PIB. A luz vermelha já está acesa e já se fala na providência de um “waiver” fiscal, ou seja, uma licença temporária das regras fiscais para reorganizar o orçamento da União. Pérsio Arida estima a necessidade de um “waiver” de R$ 100 bilhões.
Tudo somado, permanece predominante, aqui e agora, a sensação de mal-estar dos brasileiros. O infortúnio maior é com a inflação de alimentos. Combinado com a incerteza sobre o como será o amanhã. A esperança fenecendo.
Há um grande desencanto e também grande revolta de muitos segmentos da população, como lembrou Christopher Garman: “A geologia da opinião pública está podre” na América Latina (e no Brasil). Trata-se do problema recorrente da baixa qualidade dos serviços públicos e da falta de confiança nas instituições e nos políticos. Portanto, na política.
A combinação do desencanto e da revolta com a continuidade do baixo crescimento torna 2023 um grande desafio para quem ganhar a eleição – seja a direita, seja a esquerda. Assim, o que o país precisa é de um (novo) governo competente e realista. Com legitimidade para conter a escalada da polarização.
É grande o risco do Brasil reviver e aprofundar a sua realidade de “Belíndia” (a combinação de Bélgica com Índia, na imagem seminal de Edmar Bacha). E, assim, chegar ao extremo da anomia social, da violência e da ingovernabilidade. Estamos próximos dos limites da desigualdade e da pobreza, agora atenuada de maneira efêmera pelo Auxilio Brasil.
Resta urgente que o debate presidencial precisa melhorar de nível e apontar saídas para o Brasil, de forma realista. Primeiro, e acima de tudo, o combate à fome e a pobreza, com inclusão produtiva. Segundo, educação e produtividade. Terceiro, a questão climática, para proteger e desenvolver a Amazônia de forma sustentável. O Brasil é uma potência alimentar e ambiental. Essas são três questões essenciais. Quem vai ter capital político e legitimidade para melhorar a vida do brasileiro?
Conseguiremos superar o nosso mal-estar? Vamos lembrar que o “mal-estar da civilização” (escrito em 1929 por Freud) se refere à teoria freudiana de que o conflito entre as regras sociais e as pulsões primitivas do homem seria a primeira causa dos distúrbios psicológicos daquele tempo. Agora também? Distúrbios que resultam em medo, ódio e revolta.

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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