A turbulência política voltou. Vai e volta. Sobe e desce. O Congresso Nacional e o governo Lula 3 estão em modo conflito.
Na sociedade, a indignação se espraia.
Aqui, ali e acolá, temos visto, lido e ouvido vários registros reais de novo crescimento do sentimento de indignação de expressivos segmentos brasileiros de todos os estratos sociais e regiões. As pesquisas retratam o fenômeno.
O foco da indignação, outra vez, é a desesperança difusa no futuro do país. Conjugada com a rejeição das elites políticas. Rejeição agora vitaminada pelos sinais de caos político em Brasília, a caminho do Natal. Além da inacreditável derrocada do enrolado Banco Master.
Perplexidades. Mais uma crise. O país já se acostumou a viver em crises provocadas pelo eterno conflito das elites. Desde o Brasil Império. É por isso que desde o século XIX vivemos sempre dependentes de um Poder Moderador.
Começou lá atrás com o Imperador. Depois os governadores da chamada República Velha, até 1930. Depois a evolução do tenentismo. Aí veio a recaída autoritária da Era Vargas (1930-1945). Seguiu-se o interregno democrático de 1945-1964, repleto de crises das elites.
Eclodiu o golpe militar de 1964 e a ascensão dos militares ao papel de Poder Moderador. Veio a Constituinte de 1988. Veio a ascensão do Poder Judiciário como Poder Moderador. Está aí, em movimento.
Permanece uma espécie de gangorra política com solavancos e a primazia da nossa costumeira instabilidade política e incapacidade de formação de maiorias de governo.
É o contexto da indignação e da rejeição.
É verdade que as instituições, aos trancos e barrancos, estão ainda de pé e segurando a democracia brasileira. Agora mesmo, vivemos nesta semana a punição e prisão dos golpistas, civis e militares, do 8 de janeiro de 2023.
Novo ciclo político? Mas até quando vamos seguir contornando o conflito das elites, tradição da cultura política patrimonialista do Brasil?
Serão necessárias novas fagulhas acesas nas ruas para gerar um novo “Brasil manifestações de 2013”? São dúvidas socráticas.
Conversando com as pessoas que me ligam ou me abordam pelo WhatsApp, digo que a alienação eleitoral recorde prevista para 2026 é (ou será) mais um ato de conformismo e anuência com “tudo isso que está aí! ” – (como exclamam as pessoas).
A sociedade precisa usar bem a arma democrática do voto para buscar a renovação das lideranças. Alienação não! É preciso, como já expressou e demonstrou Caetano, ir às ruas pacificamente para manifestar a força da indignação.
Afinal, só o ronco das ruas é capaz de mover montanhas na política e mudar o rumo das nossas elites políticas e dirigentes.
A indignação e o debate democrático para apontar o rumo: renovação e reformas.
Sim, reformas. Mais uma vez em nossa História, esse é o nome do jogo. Duas delas já estão na mesa para avançar. A reforma administrativa e a reforma eleitoral para a adoção do voto distrital misto.
Todas as duas podem provocar mudanças virtuosas no sistema político. Seja pela busca da eficácia na operação do governo/Estado, seja pela melhoria da representação política.
Novo ciclo de reformas a partir de 2026 e 2027. Depois o semipresidencialismo formalizado, e não o semipresidencialismo branco que tem ampliado o conflito das elites. Depois a necessária nova reforma da previdência.
Difícil será convencer os brasileiros a exercer o direito de votar em 2026. A alienação eleitoral é crescente. Mas talvez um grande “basta” venha a emergir do próprio processo político-eleitoral de 2026. Indo às ruas e votando.
Desistir? Não parece combinar com a cultura do brasileiro, ao contrário da lenda da interpretação do “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda. A história mostra a reação dos brasileiros sempre no limite do acúmulo de evidências que apontam para a porta das mudanças. A exaustão provoca a reação.
Lembrar Platão: “não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam”.
O Brasil é uma nação viável. Vamos espantar o complexo de vira-lata. Refazer laços de confiança nas relações interpessoais. Reconectar a sociedade com o poder. Pela via da política.