Já comentei aqui que ouvi muitas vezes em debates nacionais a referência ao Estado do Espírito Santo como um ‘tigre asiático”.
Como se sabe, Singapura, Coreia do Sul, Hong Kong e Taiwan formaram originalmente o grupo dos Tigres Asiáticos. Com territórios pequenos, foram impulsionados por investimentos estrangeiros, por economias voltadas para o comércio exterior, por grandes investimentos em educação e por gestão pública de qualidade.
Um longo processo, desde a segunda metade do século XX.
Sim, há semelhanças. O Espírito Santo escalou esse caminho a partir dos anos 1970 e 1980. Embora ainda precise investir mais ainda em educação (a redundância é proposital).
De tal maneira que se tornou uma das economias mais globalizadas do Brasil, desde o ápice do processo de globalização, hoje em mutação para um perfil de regionalização e mudanças de cadeias produtivas globais.
Foi e é evidente a importância logística, geoeconômica e geopolítica do Espírito Santo. Nesse contexto, ao longo dos anos, o Estado potencializou a sua importância gradualmente pela adoção de uma estratégia de desenvolvimento de amplitude regional, nacional e internacional.
Onde o desenvolvimento “estadual” conectou-se a uma rede englobando estados limítrofes e toda a sua hinterlândia, num raio de aproximadamente mil quilômetros. Onde, também, conectou-se mais com as suas ligações externas na Ásia, Estados Unidos e Europa.
O Espírito Santo é também um dos Estados mais privatizados do Brasil. O seu setor público tem um peso relativo reduzido em relação ao setor privado. Portanto: perfil global e privado.
Para compensar o tamanho territorial pequeno do Estado e o reduzido peso relativo do seu setor público, acabou construindo redes de cooperação público-privadas. Construiu instituições estatais e não estatais, a partir da liderança do Poder Executivo, que se constituíram como capazes de exercer uma liderança na articulação, catalisação e sinalização do processo de desenvolvimento.
Os frutos estão sendo colhidos principalmente já no século XXI. Crescimento do PIB, melhoria de políticas públicas essenciais e qualidade de vida relativamente satisfatória no contexto de um país ainda emergente como o Brasil.
Mas é claro que precisa melhorar.
Outro dia, argumentando que “ser pequeno não é destino”, Evandro Milet registrou que, a exemplo dos países como Taiwan, Holanda, Singapura, Dinamarca e Nova Zelândia, o Espírito Santo poderia “aproveitar oportunidades a partir de situações naturais ou criadas”.
Milet mostra, por exemplo, que “a inovação aberta praticada pelas grandes empresas abriu um universo de oportunidades para startups”.
Mostra também que “o grande litoral, a localização central do Estado, o explosivo mercado de e-commerce, as grandes plantas exportadoras, uma ferrovia estratégica, novos portos e ferrovias jogam na nossa cara as oportunidades da logística e todos os seus desdobramentos em fornecedores especializados”.
Logística. Esse é o nome do jogo. A capacidade competitiva do ES em logística ampliou-se mais ainda recentemente. Por um lado, o Estado desenvolve importantes projetos estratégicos em portos, rodovias e ferrovias, além de já ter consolidado um dos melhores aeroportos de tamanho médio do Brasil (falta ainda a ampliação da capacidade de aeroporto de cargas).
Por outro lado, grandes centros de logística, como Santo (SP) e Açu (RJ) têm enfrentado superlotação de cargas. Outro dia, Paulo Vitor, especialista em logística, chamou a atenção para o fato de que a situação de Santos pode piorar. O novo túnel Santos-Guarujá, para ele, resultará em gargalo ainda maior para o Porto de Santos.
Ele mostra também que, já hoje, os portos de Itajaí (SC) e de Vitória apresentam crescimentos anuais superiores ao crescimento de Santos. Em 2024, Santos cresceu 4%; Itajaí 8%; e Vitória 15%. Com a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) em Aracruz e com o Porto Central, em Presidente Kennedy, o Espírito Santo vai ficar mais atrativo.
Tudo somado, o tigre asiático capixaba avança algumas casas no tabuleiro econômico do Brasil.