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Política

Previsão de polarização nas eleições de 2024: cabe a dúvida socrática

O estímulo à polarização terá que vir com garantias críveis de compromissos com entregas de serviços públicos. Haja vista, por exemplo, o desgaste recente do prefeito Nunes, de São Paulo

Publicado em 20 de Janeiro de 2024 às 01:15

Públicado em 

20 jan 2024 às 01:15
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

acmdob@gmail.com

Candidatos à Presidência: Lula e Bolsonaro
Lula e Bolsonaro Crédito: Agência Estado
Cabe, ainda, a dúvida socrática sobre a possibilidade de predominância da polarização política nestas eleições de 2024.
Thomas Traumann e Felipe Nunes, em “Biografia do Abismo”, produziram, com fatos e dados, um diagnóstico consistente. Registraram o crescimento da polarização político-eleitoral e da polarização afetiva no Brasil.
A resultante dessa “dupla polarização” é a “calcificação” das identidades políticas – provocada, segundo eles, pelo comportamento de Jair Bolsonaro.
A dúvida socrática começa a partir daí: calcificação provocada por Bolsonaro. Assim, Traumann e Nunes, com rigor analítico, reconhecem que a polarização é obra de liderança.
Mas ocorre que o futuro de Bolsonaro é incerto. Já está inelegível. E dá sinais de preocupação com seu isolamento político. É um estado de espírito? Além disso, caminhando para o segundo semestre deste ano, ele vai enfrentar o desgaste do crescente desfecho dos inúmeros processos que responde na justiça.
Diminui, assim, a força da intensidade de sua liderança para a indução de razões e decisões de votos. Por sua vez, Lula vai precisar melhorar a aprovação do eleitorado, nas pesquisas, à sua gestão - ao longo de 2024, até outubro.
A dúvida socrática vem, também, da evidente frustração do eleitorado nacional com a política. Pesquisa Ipec de setembro de 2023 mostra que 78% dos eleitores dizem que não têm “nenhuma vontade” de participar da vida política da sua cidade. A frustração política é evidente.
Vem daí, também, um cansaço do eleitor com a polarização política. Nichos eleitorais significativos criticam a polarização e, ao mesmo tempo, desaprovam os governos e se queixam da incapacidade de entregas de serviços à população.
José Casado lembrou bem que os eleitores seguem órfãos das promessas de democracia e prosperidade. Olhando para Brasília e para a dança dos Três Poderes da República ele observa que a política feneceu.
Ao mesmo tempo, como temos reiterado aqui na Gazeta, o sistema de governo entrou em decadência. E o poder presidencial perdeu força.
Agora em 2024 haverá, sim, uma disputa ferrenha pela defesa de cidadelas emblemáticas. São Paulo é a jóia da coroa, berço político de Lula e farol das tendências para as eleições de 2026. (É disso que se trata: eleições de 2026). O Rio, outro exemplo, é o berço de Bolsonaro. Já em Vitória, não consigo enxergar tendência de nacionalização e disputa ideológica.
O estímulo à polarização terá que vir com garantias críveis de compromissos com entregas de serviços públicos. Haja vista, por exemplo, o desgaste recente do prefeito Nunes, de São Paulo.
Dúvida socrática resultante: a nacionalização das eleições de 2024 não está dada.
Deverá haver peso importante, nas razões de votos, da capacidade de gestão e entregas. Até porque a polarização eleitoral não é novidade no Brasil, pelo menos desde 2002, no caso das eleições nacionais. E, no caso das eleições municipais, a partir da regra de conquista de maioria em segundo turno nos municípios de mais de 200 mil habitantes.
Além disso, a polarização tem origem no crescente antipetismo estrutural na sociedade brasileira, exacerbado a partir de 2002, mas nascente já no final dos anos 1980 e nos anos 1990, quando o PT começou a ganhar eleições municipais e, depois, estaduais. Até a “onde vermelha” de 2002, com a candidatura de Lula em polarização com a candidatura de José Serra, do PSDB.
A “Biografia do Abismo” é um trabalho seminal. Assim como foram seminais o estudo de André Singer de 2012 (“Os sentidos do Lulismo) e o estudo de Jairo Nicolau de 2019 (“O Brasil dobrou à Direita”).
Mas fico, por enquanto, com a dúvida socrática: “Só sei que nada sei”.

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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