Cor das Cordas apresenta um trabalho digno do violão brasileiro
Dica do Aquiles
Cor das Cordas apresenta um trabalho digno do violão brasileiro
Segundo trabalho do trio de violonistas Luca Bulgarini, Milton Daud e Edinho Godoy demandou 10 anos para ser lançado
Publicado em 14 de Julho de 2020 às 14:00
Públicado em
14 jul 2020 às 14:00
Colunista
Aquiles Reis
aquilesmpb4@gmail.com
Capa do disco "Outras Cores", do trio Cor das CordasCrédito: Divulgação
Após lançar o seu primeiro álbum em 2010, que tinha como título simplesmente o nome do trio – Cor das Cordas, os violonistas ainda são os mesmos: Luca Bulgarini, Milton Daud e Edinho Godoy. Pois saibam que eles lançaram agora o segundo CD, Outras Cores (Kuarup).
Já expus aqui, em outro comentário, o meu especial prazer ao receber o segundo trabalho de quem já ouvi o primeiro. Mas compreendo que a responsabilidade de se superar, de ser simplesmente fabulosos, irretocáveis, é imensa. Diante da meta gigantesca a que se obrigam atingir, o segundo tem de suplantar a qualidade do primeiro – simples assim. Tal imposição, que costuma ser autoimposta, obriga o segundão a ser, no mínimo, genial. Assim, muitos ficam pelo caminho, pois o peso da exigência é muito forte.
O caso é que Outras Cores, o segundo álbum do Cor das Cordas, demandou dez anos (!) para ser lançado. Pensando eu cá com os meus botões: se não músico, o que eles seriam no futuro? Professores? Banqueiros?
Mas e o trio? Bem... vamos ao segundo álbum do Cor das Cordas. A sonoridade que vem dos violões quando tocam juntos é puro encanto. Seus uníssonos têm uma precisão suíça: violão nenhum atrasa ou adianta o que o arranjo determina. E momentos de beleza vêm quando, em duos, rola uma terça esperta. Meu Deus!
Os rapazes sabem o que esperar das seis cordas. E são cuidadosos com o instrumento, como se o violão preenchesse seus corações, com o mesmo carinho dedicado a um filho.
Sem dúvida, o trio tem o que dizer quando está ao violão. Eles são carinhosos ao abraçar o instrumento e o agasalham em sua alma imaginária, plena de amor, de infindável amor.
Cuidadosos com a escolha do repertório, escolheram cinco clássicos: “Somos Todos Iguais Nesta Noite” (Ivan Lins e Vitor Martins), “Tema de Amor de Gabriela” (Tom Jobim), “Valsinha” (Chico Buarque), “Insensatez” (Tom Jobim e Vinícius de Moraes) e “Bala Com Bala” (João Bosco e Aldir Blanc). E cinco músicas autorais, três de Daud e duas de Godoy.
Essa decisão corajosa coloca o trio num ponto acima da maior visibilidade, posição que, sem dúvida, chamará a atenção dos amantes da música instrumental.
A tampa abre com "Tribo Brasilis" (Milton Daud). As percussões de André Kurchal e Edmundo Carneiro iniciam em fade in para alguns compassos depois, em fade out, fazerem o couro comer, numa levada em que as peles dos atabaques se consagram.
No belo arranjo de Daud, os três violões timbram bonito. O arranjo quente do tema lembra o arranjo de "Arrastão", clássico de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, presente no primeiro disco do trio. As percussões se expandem em notável suingue, enquanto os violões se entrelaçam – como se abraçassem a beleza.
Beleza presente desde a intro até a tampa fechar, entregando-se ao lirismo de “Valsinha”. Num duo de violões, quando o som grave do violão barítono vem à cena e, com desenhos abertos, complementa o violão de seis cordas, o resultado é precioso. É o simples se criando.
Aquiles Reis
Aquiles Reis é músico e vocalista do MPB4. Nascido em Niterói, em 1948, viu a música correr em suas veias em 1965, quando o grupo se profissionalizou. Há quinze anos Aquiles passou a escrever sobre música em jornais. Neste mesmo período, lançou o livro "O Gogó de Aquiles" (Editora A Girafa)