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Coluna do Aquiles

Ludere mostra que a música instrumental vence em "Baden Inédito"

No álbum, quarteto revê um Baden Powell em todo o seu esplendor composicional sem ousar copiá-lo. Trabalho ainda conta com faixas inéditas do violonista

Publicado em 09 de Março de 2021 às 14:00

Públicado em 

09 mar 2021 às 14:00
Aquiles Reis

Colunista

Aquiles Reis

aquilesmpb4@gmail.com

O quarteto Ludere
O quarteto Ludere Crédito: Monise Terra | Divulgação
Eu acredito que vocês já perceberam o meu gosto pela música instrumental. Muito me admira a tenacidade dos músicos que se dedicam ao gênero – por vezes gerando atos solidários de uns para os outros. Um instrumentista ama o instrumento que toca, e, algumas vezes, torna-o seu sobrenome.
Atualmente já não é tão proibitivo gravar um CD. Normalmente, os álbuns desses caras são independentes e/ou com apoios. E a escolha do repertório está liberta dos pitacos “geniais” que costumavam rolar no aquário.
Eles vêm conquistando liberdades, como a de gravar as próprias músicas ou criar projetos que agreguem novas sonoridades, por exemplo. A verdade é que o instrumentista, infelizmente, ainda está longe de poder viver de seu ofício com distinção.
Dito isso, um compasso à frente, cuidarei de comentar o álbum "Ludere – Baden Inédito" (independente, com apoio do ProAc, prefeitura de São Paulo). O Ludere é um quarteto instrumental criado em 2015 pelo pianista e tecladista Philippe Baden Powell – filho de quem o sobrenome entrega. Com ele, estão Rubinho Antunes (trompete e flugelhorn), Bruno Barbosa (contrabaixos acústico e elétrico) e Daniel de Paula (bateria e percussão).
Tudo começou com Philippe revendo e revirando obras inéditas de Baden Powell, desde composições inteiras nunca tocadas e abandonadas, até compassos de estudos inacabados.
A força sonora do álbum "Ludere – Baden Inédito" atesta o grande mérito do quarteto: rever um Baden Powell em todo o seu esplendor composicional inédito, mas sem ousar copiá-lo.
Os seus arranjos bebem na fonte de Baden, para, depois de se encharcarem com tudo que violonista concebeu, revelarem-se igualmente modernos e criativos. O Ludere tem personalidade.
Dentre cinco composições inéditas de Baden, agora redescobertas, ouve-se, também, músicas compostas por ele com três parceiros: Pretinho da Serrinha, Daniel de Paula e Eduardo Brechó. Além das participações especiais das cantoras Vanessa Moreno e Fabiana Cozza e dos instrumentistas Thiago Carreiri e Gabriel Grossi.
“Vai Coração” (Baden Powell e Pretinho da Serrinha) abre a tampa. Um suingue absoluto antecede a voz de Vanessa Moreno. Ela encara firme o balanço que, a essa altura, é total.
“A Lua Não Me Deixa” (BP e Eduardo Brechó) encontra na sustança da voz de Fabiana Cozza o vigor de um verdadeiro alicerce para sua interpretação incomum.
“Mergulhador” (BP) tem levada sossegada. “Choro Para Estudo” (Baden Powell) fecha a tampa. A participação especial de Gabriel Grossi com sua harmônica tem arranjo de endoidar.
A mixagem de Thiago Monteiro segue responsável por alinhavar os sons, dando a cada um a ênfase determinante na homenagem a Baden Powell.
Como as televisões, as rádios e as gravadoras são refratárias às músicas sem letras, por melhor que seja o compositor instrumentista, as portas costumam estar fechadas para ele. Obstinado, por vezes, a vontade de desistir deve bater forte – mas logo passa – e a música instrumental vence.

Aquiles Reis

Aquiles Reis é músico e vocalista do MPB4. Nascido em Niterói, em 1948, viu a música correr em suas veias em 1965, quando o grupo se profissionalizou. Há quinze anos Aquiles passou a escrever sobre música em jornais. Neste mesmo período, lançou o livro "O Gogó de Aquiles" (Editora A Girafa)

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