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Transformação social

Para deixar de ser apenas mais uma mudança de ano

Desenhar projetos voltados para o legítimo direito a um futuro melhor para todos precisa superar a noção de dia, mês, ano, década, século implicitamente imposta pelo calendário

Publicado em 30 de Dezembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

30 dez 2021 às 02:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

arlindo.villaschi@gmail.com

O estabelecimento do calendário gregoriano é um importante passo na tentativa de impor uma ordem ocidental ao mundo como um todo. Ainda que contemple e considere outras formas de medir a passagem dos tempos, esse calendário pasteuriza a essência de como diferentes cosmovisões consideram os movimentos da vida para muito além do percebido pelos humanos.
Induz muitos a acreditarem numa linearidade de ciclos de vida social e econômica e a estabelecerem datas – como a passagem de 31 de dezembro para 1º de janeiro - onde tudo pode ser desejado e que mudanças para melhor podem e devem ser esperadas. Ainda que as mudanças na folhinha 2020-21 e 2021-22 tenham sido desprovidas de festas com queima de fogos e brindes em espaços públicos, há sempre uma ilusão promovida por meios de comunicação de que estamos diante de um novo tempo e que o novo ano será melhor.
Fingir que tempos sombrios passarão pelos simples votos de um feliz ano novo é uma forma de criar ilusões que resultam no aprofundamento da distopia que está há muito presente entre nós. Distopia pela falta de perspectiva de vida para quem passa fome; para quem se coloca à busca de trabalho; para quem um dia pensou que teria um fim de vida premiado com confortos merecidos por anos a fio de atividades produtivas. Distopia, enfim, constatada pela sensação de que no passado o futuro parecia melhor.
Se o desconforto com o esperar um amanhã sempre pior do que o ontem e o hoje é difícil para pessoas e grupos familiares e étnicos a quem se impõem crescentes dívidas sociais, a ampliação dessa perspectivas para gerações inteiras mundo afora pode ser considerada uma crise civilizatória. Crise que vai muito além dos altos e baixos da economia; que aprofunda o esgarçamento do tecido social; que aparta cada vez mais a criatura humana de todos os demais seres viventes.
Crise que exige muito mais do que o simplório mudar de slogans do marquetismo de quem detem poder econômico, político e social. Se a economia vai mal, os poderosos indicam que um milagre pode ser esperado se reformas estruturais – seja lá o que isso for – forem aprovadas. Falsas soluções que ressoam através de bem engendradas mensagens legitimadas pelos meios de comunicação e por parte da academia com suas pompas e circunstâncias.
Se os desequilíbrios sociais aumentam, a mágica a que devem recorrer os perdedores é a do empreendedorismo individualista. E quando o resultado é ruim, a culpa é sempre imputada à vitima - seja por sua falta de qualificação ou por sua baixa adesão a alguma liderança religiosa carismática - da perversidade do sistema.
A resposta a crises sistêmicas da mudança climática, do extermínio de espécies e da contaminação de seres vivos é sempre mais mercado e menos regulação; mais acumulação financeira e menos atenção como as pessoas e a natureza; mais liberdade para a acumulação por poucos de ativos econômicos e menos preocupação com a vida sob suas diversas formas.
Ao crescente aprofundamento do buraco em que há muito se encontra o mundo e que a pandemia da Covid 19 apenas evidenciou, há que se responder com visões utópicas. Utopias que recuperem o legítimo direito de todos a desejarem dias melhores e a vislumbrarem maneiras de tecê-los. Utopias que somem vontades individuais por alimentos saudáveis; por saúde, educação e acesso a bens culturais; por trabalho que libere criatividades; por habitação digna, entre outros, para se transformarem em direitos de todos.
A utopia da universalização de direitos básicos de pessoas e da natureza precisa ser vista para muito além da interpretação debochada que é dada ao termo pelos poucos que há tanto se apropriam de tudo que precisa ser considerado bem comum e que se beneficiam da maior parte do progresso econômico. Ela precisa ser vista como alternativa à distopia que objetiva e subjetivamente contamina a maior parte dos seres humanos.
Desenhar projetos voltados para o legítimo direito a um futuro melhor para todos precisa superar a noção de dia, mês, ano, década, século implicitamente imposta pelo calendário. Futuro melhor transcende gerações e deve ser entendido como a busca permanente de afirmação de nossa humanidade e nossa comunhão com toda a criação.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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