Há pessoas que passam pela vida. E há pessoas que, por onde passam, deixam sementes de mundos que ainda não existem — ou que, pelo menos, ainda não aprendemos a enxergar. Tereza foi dessas.
Fazia parte de uma família que migrou de 51 (então distrito de Colatina) para Bela Aurora, em Cariacica, durante o processo de erradicação de cafezais na década de 1960.
Trouxe consigo as raízes da roça e, sem abandoná-las, fez-se urbana. Carregou a essência da vida no interior dentro de si, enquanto aprendia a cidade, seus códigos, suas contradições e suas possibilidades. Talvez por isso tivesse um jeito tão próprio de estar no mundo: com os pés em muitos lugares e o coração sempre aberto ao que ainda estava por vir.
Tereza era aprendiz de tudo o que a vida lhe apresentava. Aprendia no trabalho, no ensino formal e, sobretudo na convivência. Aprendia com as diferenças — e não apenas sobre elas.
Aproximou-se de cadeirantes, acompanhando o marido Cláudio; conviveu com a complexidade da neurologia ao se colocar, incondicional, na busca de saúde para filho Pedro; aprendeu com ostomizados e acolheu outros a partir de sua vivência pessoal; acolheu experiências de identidades de mulheres, nativos, negros e LGBTQI+. Não fazia da diferença um tema distante de reflexão: fazia dela matéria de encontro, de afeto e de transformação.
Era, à sua maneira, profundamente cosmopolita. Gostava das artes, sem a pretensão de ser erudita. De cinema, música, literatura: tudo podia lhe despertar curiosidade, emoção, indignação ou encantamento. Tinha o senso crítico afiado e uma saudável desconfiança diante das certezas prontas.
Para Tereza, tudo podia — e talvez devesse — ser questionado. Até mesmo os pressupostos humanos da fé que a alimentava.
E como tinha escuta! Ouvia amigos e parentes contando suas experiências ‘lá nos estrangeiros’, em outros países, outras culturas, outras paisagens. E sabia fazer algo raro: absorver o vivido pelo outro como matéria para repensar a própria vida. O mundo dos outros ampliava o seu próprio mundo. Cada relato podia abrir uma janela, deslocar uma certeza, provocar uma pergunta.
Tereza tinha também um profundo sentido de comunidade. Partilhava o que tinha, o que sabia, o que sentia. Sabia estar junto. Era alegre na convivência, solidária na tristeza e torcedora incansável pela alegria dos que amava. Havia nela uma espécie de generosidade cotidiana, dessas que não fazem alarde: simplesmente acontecem.
E então ela se foi. Foi-se no 07/07, às 07:07h.
É quase como se tivesse deixado pronto também um último gesto de linguagem, uma espécie de assinatura. O número 7, na tradição cabalística, está associado à ideia de completude, de ciclo que se cumpre, de passagem por etapas de transformação. Nada de tomar isso como explicação ou certeza. Acolha-se a coincidência como símbolo. Tereza, quem tanto questionava as certezas, talvez nos tenha deixado, até na despedida, uma pergunta e um convite a pensar.
Sete. Um ciclo que se fecha e, ao mesmo tempo, aponta para outro começo.
Tereza esteve à frente de seu tempo em tantos sentidos. Como mulher, mãe e militante de causas justas, não se acomodou ao lugar que lhe era destinado. Abriu caminhos, enfrentou padrões, acolheu diferenças e defendeu aquilo em que acreditava. Viveu buscando fazer do mundo um lugar mais justo, mais aberto, mais humano.
Seu legado não está apenas nas ideias que defendeu ou nas batalhas que travou; está também nas pessoas que tocou, nas perguntas que deixou, nos encontros que proporcionou, nas mudanças que provocou em quem teve a sorte de com ela conviver.
Por isso, a saudade de Tereza não é apenas ausência. É presença transformada. Está nas conversas que continuarmos a ter com ela, mesmo sem sua voz. Nas perguntas que surgirão quando estivermos diante de alguma certeza confortável. Na vontade de conhecer o diferente, antes de julgá-lo. Na solidariedade diante da tristeza alheia. Na alegria genuína pela vitória de quem amamos. Na coragem de questionar. Na disposição de aprender. Na partilha.
Tereza semeou mundos possíveis. Agora cabe a nós cuidar das sementes. Que elas germinem em nós e nos outros. Que se espalhem pelos lugares onde ela já não poderá chegar. Que sua passagem continue produzindo encontros, perguntas, solidariedade, liberdade e amorosidade.
E que, quando a saudade apertar mais, possamos lembrar não apenas da dor de tê-la perdido, mas do privilégio imenso de tê-la encontrado.
Tereza se foi. Mas aquilo que ela semeou permanece e continuará florescendo em muitos de nós.