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Sextas Crônicas

A dança acorda a vida

O que poderia ser um estranhamento virou encantamento. O caos que antecede os desfiles encontrou apoio no conceito de caos do budismo, visto como uma oportunidade para crescimento e transformação

Publicado em 09 de Fevereiro de 2024 às 02:05

Públicado em 

09 fev 2024 às 02:05
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

aure@aureaguiar.com.br

Pouca gente resiste a uma bateria de escola de samba. Estou do lado da maioria. Alinho fácil o ritmo do meu coração com as marcacões do surdo e a alegria de ganzás e pandeiros. A dança acorda a vida.
Foi lindo ver, na avenida, uma escola carnavalizar o conceito budista dos caminhos da sabedoria. Uma ousadia na escolha do enredo da Unidos de Jucutuquara, para o carnaval capixaba deste ano.
Os carros alegóricos, as fantasias e as coreografias desfilaram elementos fundamentais da cultura budista como celebração, vivência, tradição, harmonia e iluminação para homenagear o cinquentenário do mosteiro zen, que fica a menos de cem quilômetros do Sambão.
O que poderia ser um estranhamento virou encantamento. O caos que antecede os desfiles encontrou apoio no conceito de caos do budismo, visto como uma oportunidade para crescimento e transformação. Na avenida, tudo se organizou naturalmente. O Universo sempre dá seu jeito.
A efervescência do carnaval pode-se entender como um momento para a expressão da impermanência e da alegria de viver.
Cada escola tem, no máximo, 52 minutos para evoluir na avenida. Precisa sair do caos inicial, tomar forma e espírito de presença na concentração e entrar na avenida para evoluir nas curvas da coreografia, que, mesmo ensaiada, acontece diferente a cada instante, porque depende também de quem assiste. Sem esquecer, é claro, da presença dos julgadores, bem posicionados, com olhos que tudo veem e... tudo julgam.
O brilho das fantasias, o ecoar dos tambores e os sorrisos cúmplices são lembretes de que há um caminho a ser percorrido mesmo que a fantasia rasgue, que o sapato machuque, que o carro quebre. A vida não é sobre si mesmo, é a experiência compartilhada.
Confira o desfile da Jucutuquara no Carnaval de Vitória 2024
Confira o desfile da Jucutuquara no Carnaval de Vitória 2024 Crédito: Ricardo Medeiros
Fantasias são composições de personagens que desfilamos, nos emprestam cores e formas para vivenciar e causar emoções. Estamos aqui em trânsito. Nada é fixo.
De todo modo, sabemos que tudo vai se acabar na quarta-feira. Mas a quarta-feira de Vinicius de Moraes, que finda a felicidade, é diferente daquela de Martinho da Vila, que parte da vida real, do fim do carnaval, para construir uma nova ilusão para o sonho do outro ano, mais uma vez e sempre.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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