Às vezes volto a coisas já escritas e me dou conta que seria mais fácil inventar outras coisas de que repetir, como disse Cortázar. Mas, em certas circunstâncias, não dá para brigar com a reiteração da memória que teima em dar voltas como um pião até parar em um certo momento da vida. Isso acontece comigo e talvez aconteça também com vocês que leem (ou lerão) o que escrevo.
Por exemplo, gosto de andar pelo Centro desta cidade-ilha que se faz nosso chão. Nessas andanças, muito me maravilha reencontrar fragmentos de um passado que, afinal, é sempre um retorno ao presente. Cada vez que isso acontece, pelos meus olhos entram pessoas, cenas, lugares e acontecimentos que eu julgava perdidos, mas que uma espécie de repetição torna perceptíveis em outra escala muito mais misteriosa e intensa, fora das leis da física e capaz de transtornar o ambiente comum em uma espécie de areia movediça, à medida que tudo vai se desdobrando diante de mim.
O Centro de Vitória sempre foi meu lugar predileto. Não apenas por tantas lembranças pessoais que se acendem quando passo por ele, mas também pelo misto de historicidade e surpresas que vão se revelando, a cada escadaria, a cada beco, a cada praça, a cada rua. Como é o caso da tarde em que fui rever a antiga Rua das Livrarias, que forma uma espécie de rio de asfalto descendo a ladeira da Nestor Gomes e continuando pela Duque de Caxias. Digo Rua das Livrarias porque ali ficavam livrarias frequentadas e famosas, lá pelos anos do século passado: a Logos, a Paulos, a Âncora (esta última, em 2018, já mereceu uma bela crônica do poeta Matusalém Dias de Moura) e outras. Algumas, agora, transformadas em saudosas recordações.
Pois foi bem ali, percorrendo esses lugares sagrados - onde se encontravam e se reuniam poetas, escritores, jornalistas, intelectuais e todas as tribos de amantes de livros e leitura, muitas vezes em meio a jovens estudantes, mães e pais atarefados a buscar o material pedido pelas escolas - foi bem ali que me deparei com uma pequena livraria, a Catraia, ao lado da editora Cousa também recém-acomodada naquele ambiente que, em tudo, lembra os áureos anos da cidade, quando era voltada para seu Centro Histórico, bem antes da debandada para bairros considerados mais seletivos, mais novos e mais chamativos.
Certo é que aquele encontro com uma livraria discretamente engastada no casario ancestral, como um pequeno, cálido e confortável refúgio, foi um respiro de fresca esperança em meu anseio pela volta ao respeito, à valorização e à conservação do Centro de Vitória. Além, muito além da saudade ou da nostalgia de coisas perdidas.