Há muitos anos eu transito pelo país das maravilhas da literatura. Já muito li e muito escrevi. A literatura me levou por caminhos de belezas e feiuras, de alegrias e tristezas. Lendo, aprendi a reconhecer o quanto é variável a alma humana; escrevendo, aprendi as delícias e amarguras da condição de ser parte da humanidade.
Às vezes, esta minha profissão de leitora/escritora me deixa feliz; outras vezes me deixa desconfortável. Quando se dá cada uma dessas atitudes, nessa oposição contrastante? Eu poderia dizer que é uma felicidade ver que tem tanta gente escrevendo, acredito que todo mundo tem direito à escrita e cada qual sabe onde lhe doem os calos do anseio.
Se há quem pense que deve fazer poemas, romances ou contos, não serei eu a julgar, embora muitas dessas investidas na criação literária não passem de entusiasmo pelo que alguns consideram uma chegada gloriosa ao Olimpo da fama, evidentemente uma coisa sem o menor fundamento.
Ao mesmo tempo, porém, a insatisfação pula do cesto de meu encantamento e me lembra que existem políticas de promoção e autopromoção, por parte de tanta gente que aspira a um reconhecimento fácil e se desespera se não obtém um lugar nas listas dos “mais lidos” ou os aplausos dos críticos literários, na maioria das vezes ocupados em produzir encômios nas redes sociais para seus amigos do peito ou para mimosear coleguinhas de trocas como quem troca presentes de amigo X, no Natal.
Deve ser porque considero que fazer literatura independe desse entesouramento de guloseimas ofertadas à vaidade, em um banquete para alguns escolhidos, que isso me dá mal-estar. Também não me parece que escrever ficção ou produzir poemas seja apenas um modo de elaborar conteúdos a serviço da onda de testemunhos identitários que se espalha por todo o país, embora admita que o longo caminho trilhado através dos séculos por uma literatura “torre de marfim” agora tenha de ser recolocado em seu devido lugar de ser apenas uma trilha entre as muitas de que se serve quem se dedica ao incessante e duro trabalho de criar com palavras.
Mas seja quem quer que queira embarcar na aventureira nau da escrita, o melhor que tem a fazer é simplesmente escrever e depois deixar que o que escreveu siga livremente os caminhos de um bem partilhado e comum. Aqui, cabe um aviso de Cortázar, em quem sempre me ancoro, com a devida permissão da paixão: ‘Um escritor de verdade é aquele que tensiona o arco a fundo enquanto escreve e depois vai tomar vinho com os amigos. A flecha já está no ar, e se fincará ou não no alvo; só os imbecis pretendem modificar a sua trajetória”.