Muito se tem dito que o tsunami de gente que atualmente anda escrevendo e tem ânsias de publicar um livro não corresponde ao ínfimo número de gente que lê o que está sendo escrito. Para piorar, o índice de leitura no país vem baixando na velocidade espantosa de uma corrida de Fórmula 1. Segundo as imarcescíveis regras estatísticas, de 2015 para cá, o Brasil já perdeu 11,3 milhões de leitoras e leitores.
Diante da progressiva multidão de escribas, que inunda a terra brasilis com determinação literária digna de uma indomável horda de hunos disposta a ocupar territórios, não são poucos os especialistas que esgarafuncham a massa cinzenta em busca de razões para tal desacerto.
De acordo com os entendedores, os motivos para tanto variam. Há quem culpe as redes sociais. E o celular vira bode expiatório dos males que assolam a sociedade nestes tempos de acontecimentos estranhos e vertigem de tecnologias. Estudos e mais estudos sobre os chamados “efeitos da era digital no cérebro” se multiplicam como cogumelos na chuva. Todo mundo acredita que entende as perdas e os ganhos da mente humana e pontifica sobre a culpa atribuída à internet.
Tudo isso não explica o desastre. Ano após ano, a decadência da leitura acontece. Por certo que tem quem acredite que cabe à escola reverter o processo. E assim o peso da “formação de leitoras e leitores” acaba sendo jogado nas costas dos profissionais da Educação. Tudo aconteceria como se a “formação” fosse o equivalente a uma outra cultura a ser ministrada em salas de aula, como se não bastasse a tarefa já bastante complexa (e tão mal remunerada) da informação e do ensino.
Por outro lado, embora seja de interesse geral, penso que essa questão de formação do hábito da leitura não diz respeito a escritoras e escritores, pois escapa a quem de corpo e alma se dedica a fazer literatura.
Escritoras e escritores são entes solitários, fechados em seu ofício. Não se preocupam com as tendências tão volúveis das modas de produção livresca, muitas vezes ditadas por interesses comerciais ou ideológicos, que nada têm a ver com a dura, maravilhosa e incessante tarefa literária da criação.
Posso estar enganada, porém acredito no que aprendi com Cortázar: no ofício particular de criar com as palavras, o único interesse pela formação de leitoras e leitores está no desejo e na esperança de que quem ler o que está sendo escrito possa responder aos estímulos da imaginação oferecidos pela literatura e se torne, por si mesmo, um criador de belezas, verdades e transformações humanas.