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Crônica

Como a restauração do Teatro Carlos Gomes mexe com as recordações

O tempo é implacável. O Carlos Gomes se deteriorou, como tudo que é exposto ao tempo. Hoje, não deixa de ser justo o incômodo da gente, quando passa e vê o belo teatro envelhecido, embrulhado em placas de metal

Publicado em 05 de Novembro de 2024 às 02:00

Públicado em 

05 nov 2024 às 02:00
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

blyra@uol.com.br

Recebo o vídeo da reforma do Teatro Carlos Gomes que me envia um amigo gentil e querido. No esmeril das imagens, vejo operários de capacete que escalam uma rede de armações de metal. Vão se equilibrando no espaço, as cabeças voltadas para o alto. Raspam, ajustam, pincelam. Parecem compenetrados como quem executa uma tarefa sagrada.
Percebo um trabalho minucioso de restauração da pintura que ocupa o centro do teto da sala, frequentada por mim desde a juventude. Vê-la assim, tocada por raspagens e restauros, trouxe recordações. Lembrei a primeira vez em que entrei no teatro e ergui a cabeça para olhar aqueles arabescos e figurações. Alguém me explicou que eram homenagens feitas pelo pincel de Homero Massena e que Carlos Gomes, Bach, Verdi e Wagner ali eram lembrados. Em minha mente de menina vinda do interior abriu-se um espaço de intensidade e espantos. Tudo que era ancestral e antigo, naquele momento, se presentificava em nomes, linhas e cores, de uma maneira que nunca eu tinha visto.
Começou quando a Ilha era ainda um pequeno amontoado de casas e ruas estreitas concentradas na parte alta. A parte baixa era cortada por alagamentos, e riachos como o curso d’água Reguinho, que descia do Morro da Fonte Grande, foi aterrado, virou a Rua Sete. Depois Vitória se fez cidade.
Apesar do provincianismo, houve quem resolvesse que levantar um local de espetáculos teatrais seria um passo para a modernização. E surgiu o Theatro Melpômene, frente ao chamado Largo da Conceição da Prainha, agora transformado em Praça Costa Pereira. Em 1923, o Melpômene foi destruído em um incêndio. Mas a ideia da importância de um teatro permaneceu. Em 1927, veio o Carlos Gomes, pelas mãos do construtor André Carloni.
Início das obras de restauração do Teatro Carlos Gomes
Início das obras de restauração do Teatro Carlos Gomes Crédito: Fernando Madeira
Desde então, nosso orgulho cultural, perdido entre brasas e cinzas da tragédia, se restabeleceu. O novo teatro teve um curso vital agitado. Chegou até a ser cinema. Filmes, encenação de peças, balés, cerimônias de formatura, apresentações musicais, recitais literários e tantas outras coisas se sucediam em seu palco. As cortinas se abriam e lá estavam cenas, reverências, discursos, sinfonias, cantos, declamação de poemas, todo um mundo oscilante entre a realidade e a fantasia posto diante do público.
O tempo é implacável. O Carlos Gomes se deteriorou, como tudo que é exposto ao tempo. Hoje, não deixa de ser justo o incômodo da gente, quando passa e vê o belo teatro envelhecido, embrulhado em placas de metal. Tem aqueles para quem nenhuma explicação basta. Mas, para mim, o vídeo que recebi permite acreditar, deslumbrar-se e comover-se com a renovação que se opera.

Bernadette Lyra

É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve quinzenalmente, às tercas-feiras, sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

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