Procurava eu alguma coisa que pudesse dizer a vocês sobre o Natal que se aproxima, quando li uma frase do Dalai Lama, em entrevista concedida ao francês Jean Claude Carrière: “Nós somos todos parecidos e todos diferentes. Se a diferença prevalece cada um pode descobrir seu pequeno território de verdades e se apegar e ele com toda força”.
O que isso tem a ver com a festa do nascimento de Cristo? Vocês perguntarão. E eu respondo: Talvez tenha sido a profunda verdade escondida atrás dessas palavras que me fez pensar no que a data mais festiva de dezembro pode representar.
Ando pela cidade e por todos os lados vejo bolas de superfície brilhante, cordões de folhas trançados com flores vermelhas, guirlandas de onde pendem fitas com inscrições natalinas, árvores gigantes que acendem fachos de luz plantadas em praças e tanta coisa mais, como que a lembrar às criaturas humanas que é um tempo de festa.
O burburinho que se instala parece estar mais pelo ano que em breve se encerra e, sobretudo, traz férias de trabalhos e descansos, que pelo significado religioso da data em que se diz que há dois mil e vinte e cinco anos nasceu um menino em Belém, segundo o calendário gregoriano que um determinado papa decretou, a partir do ano 1, abolindo o ano zero desse nascimento divino, coisa que nem preciso explicar, pois qualquer olhadinha no Google poderá confirmar a vocês.
Mas tem uma coisa que nem o Google, nem a Wikipédia, nem a mais recente e avassaladora tirania da IA ( que se instalou inexoravelmente e vem arrepiando as escamas rancorosas dos chamados intelectuais que se julgam donos do pedaço e que, ao invés de confraternizar com esse aparato tecnológico, não querem admitir que “o novo sempre vem” , como canta o imortal Belchior), o que nenhuma dessas novidades da era digital pode credenciar é o “pequeno território das verdades” de cada vivente sobre o planeta Terra, citado pelo Dalai Lama.
Assim o Natal volta igualmente a cada 365 dias decorridos (que é a parte que nos cabe neste latifúndio ocidental). Porém o modo de encarar o Natal é extremamente pessoal, a despeito de qualquer formatação que a cultura e as sociedades possam conferir. Bem como é livre e mutável a forma como cada um festeja (ou lamenta) essa data (“Mudaria o Natal ou mudei eu?” escreveu melancolicamente Machado de Assis).
O Natal sempre volta. E existe como bem aprouver à consciência de cada criatura formada na incoercível condição de estar em um mundo plural, onde qualquer superioridade de opinião, qualquer veleidade de primazia de identidades não passa de vaidade tola, improfícua, imbecil.