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Mudança de estação

Os pássaros que habitam o Centro de Vitória na primavera

Quando a primavera chega de modo incoercível, a passarada, em busca de lugar para o devido acolhimento dos ninhos, nada mais encontra além de prédios, avançando em direção ao céu
Bernadette Lyra

Publicado em 

07 out 2025 às 02:00

Publicado em 07 de Outubro de 2025 às 05:00

A primavera nunca vem sozinha. Vem sempre cercada de acontecimentos muito além das usuais flores, cantadas em prosa e verso pelos poetas. E gosta de “causar” quando chega em seu passeio pelo planeta Terra. Foi na primavera que um menino de nove anos conheceu a menina de oito que havia de povoar seus delírios e sonhos para ao resto da vida. Por certo vocês já descobriram: estou a falar de Dante Alighieri e Beatriz Portinari, a musa que inspirou o poeta a escrever A Divina Comédia.
Nós, os humanos, ficamos a dever ao “primeiro verão” (que é o nome que deu origem à florida estação do ano), ficamos eternamente a dever àquela primavera, em Florença, pelos arrepios de encantamento que os poemas de Inferno, Purgatório, Paraíso causam na espinha dorsal de quem tem a ventura de lê-los. Entretanto, não é somente poesia que a primavera traz a reboque. Traz também reviravoltas em espécimes da natureza. Por exemplo: os passarinhos, animados pela doçura do clima, pela luz solar amena e pelo calor primaveril, começam a formar casais e a tecer ninhos onde vão nascendo filhotes de penas. Tais cerimônias matrimoniais acontecem nas matas e florestas e nelas se desenrolam a contento.
Prédios no Centro de Vitória
Centro de Vitória Crédito: Carlos Alberto Silva
Aqui, porém, no Centro de nossa cidade, inexistem matas e florestas. Até mesmo a vegetação, que cobria de verde os morros do maciço central, está sendo derrubada por pessoas que constroem casas, amontoadas nos terrenos, antes repletos de árvores e folhas, hoje arrasados por fogo, coalhados de postes em que lâmpadas ocupam o lugar dos vaga-lumes que por ali piscavam de noite.
Quando a primavera chega de modo incoercível, a passarada, em busca de lugar para o devido acolhimento dos ninhos, nada mais encontra além de prédios, avançando em direção ao céu. Começa, então, uma revoada dos bandos alados em torno dos edifícios que servem de substitutos ao habitat costumeiro de aves no seio da mata atlântica, agora arrasada pelo poder humano de tudo devastar.
Essa ocupação não ocorre sem pequenas tragédias que passam imperceptíveis aos olhos humanos. Muitas dessas aves forasteiras que buscam refúgio e se acomodam nos tetos e grades de apartamentos afugentam outras aves acostumadas a viver no ambiente, tais como os bem-te-vis que desapareceram nestes dias primaveris.
O lado bom desta tragicomédia ecológica é que os pássaros recém-chegados começam a interagir com os moradores dos prédios. A gente acorda com trinados, voos rasantes e bater de asinhas, como se ali, à beira de nossas janelas, estivesse um aprazível viveiro alado que sabemos: vai se evaporar assim que vier o segundo e verdadeiro verão.
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