Neste final de ano, é preciso lembrar muita coisa que merece não ser esquecida. Lembrar que nós, mulheres, somos todas irmãs em nossa luta contra feminicídios, injustiças, preconceitos, violências culturais, sociais, empresariais, domésticas e tantas que se repetem a cada dia. Em especial, para aquelas que se desejam escritoras, lembrar que não há determinação biológica nos modos de escrever.
Se há uma diferença no que as mulheres escrevem, isso não ocorre por destino da biologia e sim pela tomada de consciência progressiva e pelo elo existente entre arte/experiência/subjetividade. Como esquecer que, há séculos, a existência de tantas mulheres foi mantida entre quatro paredes do lar, sem acesso à educação e isolada do convívio social e das decisões?
No Brasil, por exemplo, as mulheres só foram autorizadas a frequentar a escola pública em 1827. Em 1930, Amélia Bevilácqua, primeira mulher a se candidatar a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, foi recusada sob a alegação de que a palavra “brasileiros”, no estatuto, significava que somente seres do sexo masculino poderiam fazer parte da ABL. Sem falar que mulheres que faziam literatura eram ridicularizadas em comentários e piadas. Algumas tinham de ter autorização dos pais ou maridos para publicar um livro; outras eram obrigadas a usar pseudônimos masculinos para publicar.
Quanto à necessidade de ajustar uma busca de modos de expressão e técnicas literárias à experiência social, cultural e histórica das mulheres, é inegável que tanto o lugar geográfico quanto o lugar que as pessoas ocupam nas sociedades influenciam as práticas artísticas e modelam a escritura. É preciso, porém, não cair na armadilha do conceito de “lugar de fala”, uma expressão que já virou preconceito.
Quem disse que mulheres só podem escrever sobre mulheres? Mulheres e homens estão vivenciando novas identidades. Novos comportamentos sociais mudam a cara dos gêneros. E, além do mais, não existe uma medida apenas para a produção criativa humana. Fazer arte, fazer literatura é acreditar sobretudo na força da imaginação. A literatura não é uma ilha ilhada, povoada pela hegemonia masculina.
Pela literatura, podemos alcançar uma avaliação abrangente de como anda a igualdade de gênero. Estamos quase em 2026 e a meta da igualdade de gênero ainda não foi alcançada. O número de mulheres que fazem da literatura sua profissão ainda é menor que o de homens. É preciso que aquelas que têm o dom da literatura escrevam e publiquem. É preciso cada vez mais espaço para livros de autoria feminina nas escolas, nas bibliotecas e nas livrarias.