Os episódios mais recentes envolvendo o tarifaço de Trump e a tentativa de interferência externa em assuntos que dizem respeito apenas ao Brasil também mostraram que, antes chamado de “picolé de chuchu”, o vice-presidente Geraldo Alckmin transformou-se em ingrediente essencial, verdadeiro pilar do atual governo.
Diferentemente de outros vices ao longo da história, muitas vezes ofuscados pelo protagonismo do presidente da República, Alckmin, apesar de sua discrição, tornou-se peça indispensável ao terceiro mandato de Lula.
Geraldo Alckmin é a personificação da coalizão democrática em torno do nome do petista nas eleições de 2022. Atual presidente e vice já foram adversários diretos, quando este foi candidato à presidência pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), legenda da qual Alckmin se desfiliou após mais de 33 anos, quando o ninho tucano já havia perdido sua essência e caminhava para a extinção.
Sua antiga e histórica filiação partidária foi motivo de burburinho à época de sua indicação para compor a chapa do petista, mas o desenrolar dos fatos deixou claro o peso político e a fidelidade do ex-tucano ao projeto que ajudou a eleger.
O simples fato de Alckmin aceitar compor a chapa presidencial com Lula já foi algo bastante significativo. Quem poderia imaginar, anos atrás, um petista e um tucano no mesmo palanque, do mesmo lado? Foi um ato de coragem e maturidade política o caminho trilhado por Alckmin nesse sentido: colocar eventuais divergências ideológicas momentaneamente de lado em prol de um vínculo maior em comum - o apreço à democracia e à civilidade.
Em meio à crise tarifária recente, enquanto bolsonaristas se dividiam entre elogiar o tarifaço e tentar atribuir a Lula a responsabilidade por Eduardo Bolsonaro ter ido aos EUA buscar sanções contra o Brasil, Alckmin foi voz de sobriedade e moderação.
Demonstrando sua já conhecida capacidade política, o vice-presidente pautou-se pela diplomacia, em vez de bravatas e ataques mesquinhos. Conduziu reuniões e articulações com empresários dos setores produtivos, políticos de diferentes espectros e buscou o diálogo com os estadunidenses. Evitou prejuízos ainda maiores, já que quase 700 produtos brasileiros escaparam do tarifaço.
Se antes havia dúvidas quanto à manutenção da parceria Lula-Alckmin, ficou evidente que Alckmin se credenciou para mais quatro anos como vice-presidente ou, até mesmo, para retornar ao governo do Estado de São Paulo, já que a postura leniente de Tarcísio de Freitas diante dos ataques ao Brasil e à economia do próprio estado levantou questionamentos sobre se o atual governador é, de fato, a melhor opção para o famigerado “mercado”.
Em semanas de muito ruído político e burburinho econômico, Geraldo Alckmin soube entregar resultados e demonstrou comprometimento com o bem-estar do país. Seu nome deveria, inclusive, ser cogitado como um possível sucessor de Lula. Alckmin, com sua moderação e estabilidade, reúne características de um verdadeiro estadista - perfil de que o país tanto necessita.